quarta-feira, julho 27, 2005
Licença para mentir
É um absurdo ter que parar para dizer isso. Mas é a instrução básica de hoje, é a que todo mundo tem, é mais poderosa que a licença para matar do agente britânico que não impediu o terrorismo no metrô, é mais fácil que licença de porte de arma de fogo, e nunca vai ser submetida a um plebiscito. Mas seu efeito danoso é de igual calibre. Essa situação social está muito bem refletida na CPI dos Correios e em outros cursos de gourmet políticos. Gourmet por que fabricam mais que pizzas italianíssimas, suas receitas são sofisticadas, feitas para um público de gosto apurado com a coisa corrompida. A impunidade subiu à cabeça, devorou a consciência e está com um pé na cozinha e na vida doméstica. Que o diga a santíssima mulher de Marcos Valério. E a mentira é o catalisador deste estado de coisas.
Assumir que as mentirinhas, ou famosas white lies são parte da dita inteligência social é uma conduta louvável que poucos têm. Extrapolar este limite e partir para comportamentos anti-éticos em que o eu se salva em detrimento do outro é o que muitos fazem. Ou seja, já se parte para a mentira curta, grossa e pesada, a partir do momento em que já foi estipulado que as mentiras pequenininhas são aceitas prazerosamente, como um convite para tomar um cafezinho. Mentir hoje é a mais óbvia reação. Um puro descaso com seu interlocutor e uma inaptidão para a virtude. Virtude aqui, diga-se com todas as letras, está no conceito aristotélico de moderação, de equilíbrio.
A lei prevê o direito de não responder à perguntas que possam incriminar o depoente, mas não prevê o direito de mentir, de acordo com o jurista Dalmo Dallari. Mesmo assim, e por isso mesmo, é a grande salvação da lavoura hoje. Afinal, o que está na lei é passível de punição. Não estando na lei, nada pode acontecer, oras bolas. Qual é o cretino que nunca tinha pensado nisso?
Por outro lado, contar sempre toda a verdade, apenas a verdade, nada além da verdade, é algo que nem Santo Agostinho acreditaria mais. Há realmente coisas que não são para serem ditas, como aquelas fantasias sexuais que não devem passar do sistema límbico. São pensamentos referenciais, de foro íntimo, e sua função é manter a mente relaxada com sonhos que não precisam, necessariamente, ser realizados. Opiniões descaradas e desastradas também entram nessa categoria. Sua contribuição é nula, e só servem para botar lenha na fogueira. Nenhuma desculpa posterior vai aplacar o mal em conta-gotas que causa. E nem amainar o descrédito que provoca.
Outro dia caiu na minha caixa postal um email bem curioso desse tipo. O meu conhecido, dentre um grupo de mais pessoas, recusando meu convite para um programa de viagem de final de semana, começou o texto muito curto com a verdade acima de tudo:
É um absurdo ter que parar para dizer isso. Mas é a instrução básica de hoje, é a que todo mundo tem, é mais poderosa que a licença para matar do agente britânico que não impediu o terrorismo no metrô, é mais fácil que licença de porte de arma de fogo, e nunca vai ser submetida a um plebiscito. Mas seu efeito danoso é de igual calibre. Essa situação social está muito bem refletida na CPI dos Correios e em outros cursos de gourmet políticos. Gourmet por que fabricam mais que pizzas italianíssimas, suas receitas são sofisticadas, feitas para um público de gosto apurado com a coisa corrompida. A impunidade subiu à cabeça, devorou a consciência e está com um pé na cozinha e na vida doméstica. Que o diga a santíssima mulher de Marcos Valério. E a mentira é o catalisador deste estado de coisas.
Assumir que as mentirinhas, ou famosas white lies são parte da dita inteligência social é uma conduta louvável que poucos têm. Extrapolar este limite e partir para comportamentos anti-éticos em que o eu se salva em detrimento do outro é o que muitos fazem. Ou seja, já se parte para a mentira curta, grossa e pesada, a partir do momento em que já foi estipulado que as mentiras pequenininhas são aceitas prazerosamente, como um convite para tomar um cafezinho. Mentir hoje é a mais óbvia reação. Um puro descaso com seu interlocutor e uma inaptidão para a virtude. Virtude aqui, diga-se com todas as letras, está no conceito aristotélico de moderação, de equilíbrio.
A lei prevê o direito de não responder à perguntas que possam incriminar o depoente, mas não prevê o direito de mentir, de acordo com o jurista Dalmo Dallari. Mesmo assim, e por isso mesmo, é a grande salvação da lavoura hoje. Afinal, o que está na lei é passível de punição. Não estando na lei, nada pode acontecer, oras bolas. Qual é o cretino que nunca tinha pensado nisso?
Por outro lado, contar sempre toda a verdade, apenas a verdade, nada além da verdade, é algo que nem Santo Agostinho acreditaria mais. Há realmente coisas que não são para serem ditas, como aquelas fantasias sexuais que não devem passar do sistema límbico. São pensamentos referenciais, de foro íntimo, e sua função é manter a mente relaxada com sonhos que não precisam, necessariamente, ser realizados. Opiniões descaradas e desastradas também entram nessa categoria. Sua contribuição é nula, e só servem para botar lenha na fogueira. Nenhuma desculpa posterior vai aplacar o mal em conta-gotas que causa. E nem amainar o descrédito que provoca.
Outro dia caiu na minha caixa postal um email bem curioso desse tipo. O meu conhecido, dentre um grupo de mais pessoas, recusando meu convite para um programa de viagem de final de semana, começou o texto muito curto com a verdade acima de tudo:
oi.
magali.
nao gosto deste nome...do seu....
E continuou, sobrando até para nossa língua- mãe:
estou querendo ir, so não sei como...
acho que vou descidir amanha, se vou para a luz, que acho é melhor, ou
vou
direto de mogi, de carro.
meu tel. é: 11 4798-2854
meu celular está fora de serviço este final de semana.
até.
Eu ria ao me ver livre de um embuste que arrematou que iria viajar sim, mas não sabia nem quando, nem como. Não contente, deixou o número do celular, sem esquecer de dizer que naquele final se semana ele estaria fora da área de cobertura. Não sabe nem assinar o próprio nome, e pouco se importa com isso. Sem rodeios, é o lulês do Zé Simão, mais direto impossível. Mais contemporâneo, não há. Pensando bem, é mesmo a cara do sujeito, coitado.
Mas nem todos conseguem seguir uma ou outra tendência. Os que ficam no meio são os mais perigosos. São os dissimulados, os omissos, os que não falam bem, nem mal, apenas não falam nada. Ou mudam de assunto. Deixam o espetáculo correr, batem palmas ao final, mas nunca mais são visto, nem ouvidos. Provavelmente por que estão em outras paragens já. Não criam vínculos, não se afeiçoam, não se dedicam. Vão de um lado para outro apenas pela antropofagia financeira, social ou sexual . Estes sabem manipular a mentira e a verdade. Quando contam a verdade, sabem chorar. E quando mentem, sabem negar até o fim.
Para fins didáticos nesta remodulação de tradicionais teorias da personalidade, assistam à TV Senado e TV Câmara. E vivam intensamente. Mas com precauções.
segunda-feira, julho 04, 2005
A profundeza de pires da Internet
A verdade dói, mas precisa ser dita. Beatriz Sarlo, nesta entrevista um pouco confusa devido à má tradução, é clara: a Internet é mais uma midia, e como tal, deve ser manipulada conscientemente. Os deslumbrados que só fazem voôs rasantes se perdem facilmente na grande rede, após horas a fio acumularam apenas dados inúteis e contatinhos tão duradouros quanto o cometa Halley. Os olhos ficam cheios, mas a retina, cansada. Tal qual zapear a TV. E como se não bastasse, há sim uma maior exclusão social, financeira, educativa e profissional. É preciso usar a web com ponderação, o olhar deve ser muito seletivo, e a conexão com a vida real não pode se perder nem ser substituída. Se engatinhamos no seu ambiente, a maturidade deve vir o mais rápido possível, e deve ser muito sólida e basal. Mas isso, claro, vem de hábitos há muito abandonados: leitura, discussão e aprendizado.
A Festa Literária Internacional de Paraty, que começa na próxima quarta-feira, 6 de junho, com uma homenagem a escritora Clarice Lispector, reflete as incertezas e apreensões da vida contemporânea. A
programação trocou a ênfase na ficção, que marcou as duas primeiras edições da festa, em 2004 e 2003, por debates que abrangem o que os editores chamam de não-ficção. O forte de Paraty esse ano é a discussão de idéias que, de alguma maneira, ajudem a explicar ou entender o mundo.
Para cumprir esse papel, a crítica literária Beatriz Sarlo, uma das mais importantes críticas do continente. Argentina, ela tem está relançando no Brasil o seu livro "Cenas da vida pós-moderna" (Editora UFRJ, R$ 27, 100 págs.), no qual uma série de ensaios discutem a complexa relação entre mercado e vida cultural. Na mesa "Um lugar para as idéias", que ela divide com Roberto Schwarz, ela falará de literatura e ideologia, intelectuais e política no mundo globalizado. Nesta entrevista, ela fala de Internet e de seus impactos na vida cotidiana e diz: "A Internet exige que um público muito mais alfabetizado, ou tudo que ele vai encontrar na rede é o mesmo lixo da TV diária."
A partir desta quarta-feira, 6, NoMínimo terá cobertura diária da FLIP.
O seu livro "Cenas da vida pós-moderna" é de cinco anos atrás. De lá para cá, o avanço da tecnologia e da ciência foi muito grande. A sra. acha que muita coisa mudou de lá para cá?
Sim, fundamentalmente a difusão da Internet, fenômeno que não estava presente em "Cenas da vida pós-moderna" e que possivelmente é o acontecimento cultural de mais transcêndencia nos últimos 10 ou 15 anos. Creio que a Internet é uma gigantesca massa desforme ou informe de textos que nos rodeia como uma espécie de segunda atmosfera, na qual é muito difícil se movimentar. Mais do que ser um lugar onde o público acostumado com os meios de comunicação pode se mover com facilidade, creio que é um lugar muito difícil, cheio de buracos negros e de truques. Mas acredito também que o fenômeno mais importante ocorrido nos últimos 15 anos.
A sra. discute no livro o papel dos intelectuais na vida pós-moderna. A sra. acha que a Internet afeta ainda mais o papel dos intelectuais?
Não, absolutamente. Um dos fenômenos que a Internet permite é a circulação planetária de discursos. Muitos desses discursos são publicidade pura e simplesmente, muitos estão verdadeiramente ligados a empresas comerciais, mas uma parte importante da Internet são discursos intelectuais e publicações acadêmicas etc. Pessoalmente, não vejo uma ligação da Internet com o papel dos intelectuais. Para mim a questão da Internet é que requer um público mais bem alfabetizado inclusive mais alfabetizado do que o público dos jornais. É muito difícil manejar a massa gigantesca de texto, com buscadores muitos rudimentares e elementares como são ainda hoje os melhores buscadores, que verdadeiramente só pode ser usado bem por pessoas muito bem treinadas em busca de informações. Mais do que pensar na Internet num lugar super-democrático, é preciso pensá-la como um lugar que exige muita destreza. Isso se quisermos pensar a Internet como mais do que apenas baixar uma música em mp3.
Nesse sentido, a Internet seria restritiva não apenas no aspecto econômico, mas também por exigir do usuário habilidades muito específicas?
Sim, porque sem esse treino para lidar com a Internet o que as pessoas vão encontrar é praticamente o mesmo lixo que se vê na TV diariamente. Se Internet é um instrumento de liberação de informações e mensagens culturais, é para públicos que estejam muito bem preparados. Primeiro, para ler muito bem. Até agora, a Internet ainda é mais texto do que imagem. Internet não tem mapa, não tem cartografia. Portanto, não somente há uma desigualdade material para ter acesso ao computador, mas também porque os públicos estão desigualmente preparados para ter acesso a elas.
As conseqüências da vida pós-moderna que a sra. discute no livro são piores ou mais perversas para os países em desenvolvimento?
Não as discuto em termos de piores ou de mais perversas. Essa etapa de transformação cultural coincidiu com uma etapa de globalização econômica. A etapa de transformação cultural que estamos vivendo nos últimos 20 anos não se deu num vazio de transformações econômicas. Ao contrário, essas mudanças se deram num processo de globalização do capitalismo que afetou muitíssimo as economias latino-americanos e que manteve padrões de desiguldade fortíssimos na maior parte desses países, o único que poderia ser excluído é o Chile. Todos os outros países mantiveram ou acenturam padrões de desigualdade muito fortes. Portanto, creio que não se pode perseguir somente o fenômeno cultural, mas que é preciso olhar para o contexto do capitalismo no qual esse fenômeno se manifestou. E essa etapa do capitalismo provocou na América Latina maior exclusão cultural, maior exclusão educativa, maior exclusão no mercado de trabalho.
A sra. acredita que exista um renascimento da utopia da união da América Latina?
A pista para pensar se esse processo de maior auto-consciência da América Latina se acentuou tem a ver com o movimento político que se vê nesse sentido. São os governos os responsáveis por colocar em andamento os processos de sistematizar relações culturais, econômicas e políticas na América Latina. Hoje, a questão é discutir que podem fazer os países frente as crises que os outros países estão atravessando. É importante saber qual é a posição do Brasil, da Argentina ou do México em relação a crise na Bolívia. Tudo tem a ver como os países latino-americanos encaram os processos de globalização. Mas as burguesias de cada país não estão dispostas a ceder nada em nome de uma unidade latino-americana. Acredito numa construção institucional da América Latina.
A sra. acha que as novas tecnologias alteraram fundamentalmente o lugar da arte nos tempos de hoje?
A discussão sobre arte e novas tecnologias não é contemporânea. Está em pauta desde as vanguardas do primeiro terço do século 20. As novas tecnologias estão incorporadas nas vanguardas artísticas há bastante tempo. Creio que a oposição hoje não passa, em absoluto, pela oposição entre arte e tecnologia. A discussão passa por arte e as tendências de mercado, que são cada vez mais poderosas. O que se vê é uma situação de acovardamento de certas produções estéticas e a passividade com que os governos encaram suas políticas culturais. Na Argentina, por exemplo, existe uma urgência de uma política de proteção ao livro. Existe uma produção artística minoritária que não está capturada pelo mercado. No caso argentino, a produção teatral underground tem um vigor. A questão é como essas produções se relacionam com a resposta do público. A idéia de um estado que intervenha ativamente é fundamental.
http://nominimo.ibest.com.br/notitia/servlet/newstorm.notitia.presentation.NavigationServlet?publicationCode=1&pageCode=26&textCode=17097&date=currentDate&contentType=html
A Festa Literária Internacional de Paraty, que começa na próxima quarta-feira, 6 de junho, com uma homenagem a escritora Clarice Lispector, reflete as incertezas e apreensões da vida contemporânea. A
programação trocou a ênfase na ficção, que marcou as duas primeiras edições da festa, em 2004 e 2003, por debates que abrangem o que os editores chamam de não-ficção. O forte de Paraty esse ano é a discussão de idéias que, de alguma maneira, ajudem a explicar ou entender o mundo.
Para cumprir esse papel, a crítica literária Beatriz Sarlo, uma das mais importantes críticas do continente. Argentina, ela tem está relançando no Brasil o seu livro "Cenas da vida pós-moderna" (Editora UFRJ, R$ 27, 100 págs.), no qual uma série de ensaios discutem a complexa relação entre mercado e vida cultural. Na mesa "Um lugar para as idéias", que ela divide com Roberto Schwarz, ela falará de literatura e ideologia, intelectuais e política no mundo globalizado. Nesta entrevista, ela fala de Internet e de seus impactos na vida cotidiana e diz: "A Internet exige que um público muito mais alfabetizado, ou tudo que ele vai encontrar na rede é o mesmo lixo da TV diária."
A partir desta quarta-feira, 6, NoMínimo terá cobertura diária da FLIP.
O seu livro "Cenas da vida pós-moderna" é de cinco anos atrás. De lá para cá, o avanço da tecnologia e da ciência foi muito grande. A sra. acha que muita coisa mudou de lá para cá?
Sim, fundamentalmente a difusão da Internet, fenômeno que não estava presente em "Cenas da vida pós-moderna" e que possivelmente é o acontecimento cultural de mais transcêndencia nos últimos 10 ou 15 anos. Creio que a Internet é uma gigantesca massa desforme ou informe de textos que nos rodeia como uma espécie de segunda atmosfera, na qual é muito difícil se movimentar. Mais do que ser um lugar onde o público acostumado com os meios de comunicação pode se mover com facilidade, creio que é um lugar muito difícil, cheio de buracos negros e de truques. Mas acredito também que o fenômeno mais importante ocorrido nos últimos 15 anos.
A sra. discute no livro o papel dos intelectuais na vida pós-moderna. A sra. acha que a Internet afeta ainda mais o papel dos intelectuais?
Não, absolutamente. Um dos fenômenos que a Internet permite é a circulação planetária de discursos. Muitos desses discursos são publicidade pura e simplesmente, muitos estão verdadeiramente ligados a empresas comerciais, mas uma parte importante da Internet são discursos intelectuais e publicações acadêmicas etc. Pessoalmente, não vejo uma ligação da Internet com o papel dos intelectuais. Para mim a questão da Internet é que requer um público mais bem alfabetizado inclusive mais alfabetizado do que o público dos jornais. É muito difícil manejar a massa gigantesca de texto, com buscadores muitos rudimentares e elementares como são ainda hoje os melhores buscadores, que verdadeiramente só pode ser usado bem por pessoas muito bem treinadas em busca de informações. Mais do que pensar na Internet num lugar super-democrático, é preciso pensá-la como um lugar que exige muita destreza. Isso se quisermos pensar a Internet como mais do que apenas baixar uma música em mp3.
Nesse sentido, a Internet seria restritiva não apenas no aspecto econômico, mas também por exigir do usuário habilidades muito específicas?
Sim, porque sem esse treino para lidar com a Internet o que as pessoas vão encontrar é praticamente o mesmo lixo que se vê na TV diariamente. Se Internet é um instrumento de liberação de informações e mensagens culturais, é para públicos que estejam muito bem preparados. Primeiro, para ler muito bem. Até agora, a Internet ainda é mais texto do que imagem. Internet não tem mapa, não tem cartografia. Portanto, não somente há uma desigualdade material para ter acesso ao computador, mas também porque os públicos estão desigualmente preparados para ter acesso a elas.
As conseqüências da vida pós-moderna que a sra. discute no livro são piores ou mais perversas para os países em desenvolvimento?
Não as discuto em termos de piores ou de mais perversas. Essa etapa de transformação cultural coincidiu com uma etapa de globalização econômica. A etapa de transformação cultural que estamos vivendo nos últimos 20 anos não se deu num vazio de transformações econômicas. Ao contrário, essas mudanças se deram num processo de globalização do capitalismo que afetou muitíssimo as economias latino-americanos e que manteve padrões de desiguldade fortíssimos na maior parte desses países, o único que poderia ser excluído é o Chile. Todos os outros países mantiveram ou acenturam padrões de desigualdade muito fortes. Portanto, creio que não se pode perseguir somente o fenômeno cultural, mas que é preciso olhar para o contexto do capitalismo no qual esse fenômeno se manifestou. E essa etapa do capitalismo provocou na América Latina maior exclusão cultural, maior exclusão educativa, maior exclusão no mercado de trabalho.
A sra. acredita que exista um renascimento da utopia da união da América Latina?
A pista para pensar se esse processo de maior auto-consciência da América Latina se acentuou tem a ver com o movimento político que se vê nesse sentido. São os governos os responsáveis por colocar em andamento os processos de sistematizar relações culturais, econômicas e políticas na América Latina. Hoje, a questão é discutir que podem fazer os países frente as crises que os outros países estão atravessando. É importante saber qual é a posição do Brasil, da Argentina ou do México em relação a crise na Bolívia. Tudo tem a ver como os países latino-americanos encaram os processos de globalização. Mas as burguesias de cada país não estão dispostas a ceder nada em nome de uma unidade latino-americana. Acredito numa construção institucional da América Latina.
A sra. acha que as novas tecnologias alteraram fundamentalmente o lugar da arte nos tempos de hoje?
A discussão sobre arte e novas tecnologias não é contemporânea. Está em pauta desde as vanguardas do primeiro terço do século 20. As novas tecnologias estão incorporadas nas vanguardas artísticas há bastante tempo. Creio que a oposição hoje não passa, em absoluto, pela oposição entre arte e tecnologia. A discussão passa por arte e as tendências de mercado, que são cada vez mais poderosas. O que se vê é uma situação de acovardamento de certas produções estéticas e a passividade com que os governos encaram suas políticas culturais. Na Argentina, por exemplo, existe uma urgência de uma política de proteção ao livro. Existe uma produção artística minoritária que não está capturada pelo mercado. No caso argentino, a produção teatral underground tem um vigor. A questão é como essas produções se relacionam com a resposta do público. A idéia de um estado que intervenha ativamente é fundamental.
http://nominimo.ibest.com.br/notitia/servlet/newstorm.notitia.presentation.NavigationServlet?publicationCode=1&pageCode=26&textCode=17097&date=currentDate&contentType=html
domingo, julho 03, 2005
Maçã para Eva e Branca de Neve já era....
A traição se faz agora por morangos com leite condensado
É necessária uma atualização de alguns simbolismos que sempre conduziram estórias e histórias da nossa sociedade ocidental. O velho signo da maçã como veículo do pecado e da traição mortífera, por exemplo, deveria ser substituído por inocentes morangos frescos embebidos em leite condensado. Eva e Branca de Neve sucumbiram em vão, não houve a salvação do Paraíso e nem aconteceu o amor eterno de um conto de fadas. A beleza da morte de rubi ainda é ainda o desfecho número um das maiores ilusões da vida humana. E esse fim sempre necessário pode ser muito potencializado com seletos morangos.
Servidos em pequenas porções na calada da noite, mas à vontade, morangos surpreendem a vítima e a envolvem apaixonadamente. Eles devem ser firmes, mas macios, desmanchando na boca de tal maneira que amortizem o cérebro. Devem seduzir aos poucos, gerando grande excitação das papilas gustativas e ativando o córtex cerebral com muitas informações sensoriais.
O efeito da fruta é como o de um potente láudano, vagaroso, com um leve palpitar do coração nos primeiros minutos, umas batidas mais secas, que evoluem com pungência para breves ataques de taquicardia que deixam o corpo em estado de alerta. O gosto doce sobe ao céu da boca, o olfato se arrefece. Após 12 horas, há uma dormência nas mãos, e as pernas enfraquecem. A vítima sofre, então, de amnésia anterógrada. A memória volta aos poucos, e cada vez mais forte e alucinante. O cerebelo, não se sabe bem o porquê, é o menos atingido, o que explica as reações condicionadas após 48 horas.
O pico se dá duas horas depois, com um escurecimento da visão e uma dor latejante no lobo central. A intensidade aumenta muito rápido, a hemorragia já é generalizada, e a certeza de que tudo se esvai entorpece a mente. A lucidez é nula. A loucura já está instalada, a dor é insuportável, o desespero é dantesco. O olhar não de fixa mais em nada, há uma falência da moral.
Há muito pouco a se fazer. A menos, é claro, que se conheça o antídoto. Ele deve ser produzido imediatamente, em uma reação de força e repetição. Um mantra biológico que re- conduzirá à harmonia se administrado com precisão. Serão 21 dias de foco absoluto durante a convalescência, com o cessar da hemorragia e a indução por substâncias intra-venosas da auto-reconstituição dos órgãos da vítima. O metabolismo se equilibra e as funções vitais voltam muito lentamente. Em um segundo estágio, os músculos já não estarão tão tensos, a fragilidade gradativamente diminui.
Não há estudos relevantes sobre as seqüelas de todo o processo. Cabe aqui uma observação bem acurada. E será feita.
A traição se faz agora por morangos com leite condensado
É necessária uma atualização de alguns simbolismos que sempre conduziram estórias e histórias da nossa sociedade ocidental. O velho signo da maçã como veículo do pecado e da traição mortífera, por exemplo, deveria ser substituído por inocentes morangos frescos embebidos em leite condensado. Eva e Branca de Neve sucumbiram em vão, não houve a salvação do Paraíso e nem aconteceu o amor eterno de um conto de fadas. A beleza da morte de rubi ainda é ainda o desfecho número um das maiores ilusões da vida humana. E esse fim sempre necessário pode ser muito potencializado com seletos morangos.
Servidos em pequenas porções na calada da noite, mas à vontade, morangos surpreendem a vítima e a envolvem apaixonadamente. Eles devem ser firmes, mas macios, desmanchando na boca de tal maneira que amortizem o cérebro. Devem seduzir aos poucos, gerando grande excitação das papilas gustativas e ativando o córtex cerebral com muitas informações sensoriais.
O efeito da fruta é como o de um potente láudano, vagaroso, com um leve palpitar do coração nos primeiros minutos, umas batidas mais secas, que evoluem com pungência para breves ataques de taquicardia que deixam o corpo em estado de alerta. O gosto doce sobe ao céu da boca, o olfato se arrefece. Após 12 horas, há uma dormência nas mãos, e as pernas enfraquecem. A vítima sofre, então, de amnésia anterógrada. A memória volta aos poucos, e cada vez mais forte e alucinante. O cerebelo, não se sabe bem o porquê, é o menos atingido, o que explica as reações condicionadas após 48 horas.
O pico se dá duas horas depois, com um escurecimento da visão e uma dor latejante no lobo central. A intensidade aumenta muito rápido, a hemorragia já é generalizada, e a certeza de que tudo se esvai entorpece a mente. A lucidez é nula. A loucura já está instalada, a dor é insuportável, o desespero é dantesco. O olhar não de fixa mais em nada, há uma falência da moral.
Há muito pouco a se fazer. A menos, é claro, que se conheça o antídoto. Ele deve ser produzido imediatamente, em uma reação de força e repetição. Um mantra biológico que re- conduzirá à harmonia se administrado com precisão. Serão 21 dias de foco absoluto durante a convalescência, com o cessar da hemorragia e a indução por substâncias intra-venosas da auto-reconstituição dos órgãos da vítima. O metabolismo se equilibra e as funções vitais voltam muito lentamente. Em um segundo estágio, os músculos já não estarão tão tensos, a fragilidade gradativamente diminui.
Não há estudos relevantes sobre as seqüelas de todo o processo. Cabe aqui uma observação bem acurada. E será feita.