segunda-feira, julho 04, 2005

A profundeza de pires da Internet

A verdade dói, mas precisa ser dita. Beatriz Sarlo, nesta entrevista um pouco confusa devido à má tradução, é clara: a Internet é mais uma midia, e como tal, deve ser manipulada conscientemente. Os deslumbrados que só fazem voôs rasantes se perdem facilmente na grande rede, após horas a fio acumularam apenas dados inúteis e contatinhos tão duradouros quanto o cometa Halley. Os olhos ficam cheios, mas a retina, cansada. Tal qual zapear a TV. E como se não bastasse, há sim uma maior exclusão social, financeira, educativa e profissional. É preciso usar a web com ponderação, o olhar deve ser muito seletivo, e a conexão com a vida real não pode se perder nem ser substituída. Se engatinhamos no seu ambiente, a maturidade deve vir o mais rápido possível, e deve ser muito sólida e basal. Mas isso, claro, vem de hábitos há muito abandonados: leitura, discussão e aprendizado.


A Festa Literária Internacional de Paraty, que começa na próxima quarta-feira, 6 de junho, com uma homenagem a escritora Clarice Lispector, reflete as incertezas e apreensões da vida contemporânea. A
programação trocou a ênfase na ficção, que marcou as duas primeiras edições da festa, em 2004 e 2003, por debates que abrangem o que os editores chamam de não-ficção. O forte de Paraty esse ano é a discussão de idéias que, de alguma maneira, ajudem a explicar ou entender o mundo.

Para cumprir esse papel, a crítica literária Beatriz Sarlo, uma das mais importantes críticas do continente. Argentina, ela tem está relançando no Brasil o seu livro "Cenas da vida pós-moderna" (Editora UFRJ, R$ 27, 100 págs.), no qual uma série de ensaios discutem a complexa relação entre mercado e vida cultural. Na mesa "Um lugar para as idéias", que ela divide com Roberto Schwarz, ela falará de literatura e ideologia, intelectuais e política no mundo globalizado. Nesta entrevista, ela fala de Internet e de seus impactos na vida cotidiana e diz: "A Internet exige que um público muito mais alfabetizado, ou tudo que ele vai encontrar na rede é o mesmo lixo da TV diária."


A partir desta quarta-feira, 6, NoMínimo terá cobertura diária da FLIP.


O seu livro "Cenas da vida pós-moderna" é de cinco anos atrás. De lá para cá, o avanço da tecnologia e da ciência foi muito grande. A sra. acha que muita coisa mudou de lá para cá?

Sim, fundamentalmente a difusão da Internet, fenômeno que não estava presente em "Cenas da vida pós-moderna" e que possivelmente é o acontecimento cultural de mais transcêndencia nos últimos 10 ou 15 anos. Creio que a Internet é uma gigantesca massa desforme ou informe de textos que nos rodeia como uma espécie de segunda atmosfera, na qual é muito difícil se movimentar. Mais do que ser um lugar onde o público acostumado com os meios de comunicação pode se mover com facilidade, creio que é um lugar muito difícil, cheio de buracos negros e de truques. Mas acredito também que o fenômeno mais importante ocorrido nos últimos 15 anos.


A sra. discute no livro o papel dos intelectuais na vida pós-moderna. A sra. acha que a Internet afeta ainda mais o papel dos intelectuais?

Não, absolutamente. Um dos fenômenos que a Internet permite é a circulação planetária de discursos. Muitos desses discursos são publicidade pura e simplesmente, muitos estão verdadeiramente ligados a empresas comerciais, mas uma parte importante da Internet são discursos intelectuais e publicações acadêmicas etc. Pessoalmente, não vejo uma ligação da Internet com o papel dos intelectuais. Para mim a questão da Internet é que requer um público mais bem alfabetizado inclusive mais alfabetizado do que o público dos jornais. É muito difícil manejar a massa gigantesca de texto, com buscadores muitos rudimentares e elementares como são ainda hoje os melhores buscadores, que verdadeiramente só pode ser usado bem por pessoas muito bem treinadas em busca de informações. Mais do que pensar na Internet num lugar super-democrático, é preciso pensá-la como um lugar que exige muita destreza. Isso se quisermos pensar a Internet como mais do que apenas baixar uma música em mp3.


Nesse sentido, a Internet seria restritiva não apenas no aspecto econômico, mas também por exigir do usuário habilidades muito específicas?

Sim, porque sem esse treino para lidar com a Internet o que as pessoas vão encontrar é praticamente o mesmo lixo que se vê na TV diariamente. Se Internet é um instrumento de liberação de informações e mensagens culturais, é para públicos que estejam muito bem preparados. Primeiro, para ler muito bem. Até agora, a Internet ainda é mais texto do que imagem. Internet não tem mapa, não tem cartografia. Portanto, não somente há uma desigualdade material para ter acesso ao computador, mas também porque os públicos estão desigualmente preparados para ter acesso a elas.

As conseqüências da vida pós-moderna que a sra. discute no livro são piores ou mais perversas para os países em desenvolvimento?

Não as discuto em termos de piores ou de mais perversas. Essa etapa de transformação cultural coincidiu com uma etapa de globalização econômica. A etapa de transformação cultural que estamos vivendo nos últimos 20 anos não se deu num vazio de transformações econômicas. Ao contrário, essas mudanças se deram num processo de globalização do capitalismo que afetou muitíssimo as economias latino-americanos e que manteve padrões de desiguldade fortíssimos na maior parte desses países, o único que poderia ser excluído é o Chile. Todos os outros países mantiveram ou acenturam padrões de desigualdade muito fortes. Portanto, creio que não se pode perseguir somente o fenômeno cultural, mas que é preciso olhar para o contexto do capitalismo no qual esse fenômeno se manifestou. E essa etapa do capitalismo provocou na América Latina maior exclusão cultural, maior exclusão educativa, maior exclusão no mercado de trabalho.


A sra. acredita que exista um renascimento da utopia da união da América Latina?

A pista para pensar se esse processo de maior auto-consciência da América Latina se acentuou tem a ver com o movimento político que se vê nesse sentido. São os governos os responsáveis por colocar em andamento os processos de sistematizar relações culturais, econômicas e políticas na América Latina. Hoje, a questão é discutir que podem fazer os países frente as crises que os outros países estão atravessando. É importante saber qual é a posição do Brasil, da Argentina ou do México em relação a crise na Bolívia. Tudo tem a ver como os países latino-americanos encaram os processos de globalização. Mas as burguesias de cada país não estão dispostas a ceder nada em nome de uma unidade latino-americana. Acredito numa construção institucional da América Latina.


A sra. acha que as novas tecnologias alteraram fundamentalmente o lugar da arte nos tempos de hoje?

A discussão sobre arte e novas tecnologias não é contemporânea. Está em pauta desde as vanguardas do primeiro terço do século 20. As novas tecnologias estão incorporadas nas vanguardas artísticas há bastante tempo. Creio que a oposição hoje não passa, em absoluto, pela oposição entre arte e tecnologia. A discussão passa por arte e as tendências de mercado, que são cada vez mais poderosas. O que se vê é uma situação de acovardamento de certas produções estéticas e a passividade com que os governos encaram suas políticas culturais. Na Argentina, por exemplo, existe uma urgência de uma política de proteção ao livro. Existe uma produção artística minoritária que não está capturada pelo mercado. No caso argentino, a produção teatral underground tem um vigor. A questão é como essas produções se relacionam com a resposta do público. A idéia de um estado que intervenha ativamente é fundamental.


http://nominimo.ibest.com.br/notitia/servlet/newstorm.notitia.presentation.NavigationServlet?publicationCode=1&pageCode=26&textCode=17097&date=currentDate&contentType=html
Comments:
Oi Magali, tudo bem?
Várias coisas me incomodaram nesta
matéria da Beatriz. Mas principalmente
ela falar da Internet como se sempre
houvesse existido, será que ela já esqueceu como era difícil e demorado
o acesso a qualquer informação antes
da Internet? E que estas infos tem várias camadas com densidades diferentes
Que a web somente reflete
os interesses do usuário e no caso dela deve ser mesmo, raso como um pires.
Espanta-me alguém com uma opinião
desta, estar falando de pos modernidade.
 
Olá, Adriano, como vai?

Entendo seu ponto de vista, porém vejo claramente que a Beatriz foi enfática em citar o fenômeno da internet como o mais importante culturalmente dos últimos 15 anos, o que não deixa dúvidas de que anterior a ele a situação não era tão privilegiada.
Não sou adepta de história como rótulos, muito menos empenhar algo tão disforme como uma pós-modernidade no contexto de auto-gestão da internet.
Por outro lado, concordo que a grande rede reflita o uso que se tem dela, naturalmente, e justamente por isso deve ser melhor manipulada e absorvida, por sua imensidão de armadilhas. Acredito que este foi o que pode se aproveitar de melhor da Beatriz.

Obrigada pela visita, Adriano, um beijo.
 
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