quarta-feira, julho 27, 2005
Licença para mentir
É um absurdo ter que parar para dizer isso. Mas é a instrução básica de hoje, é a que todo mundo tem, é mais poderosa que a licença para matar do agente britânico que não impediu o terrorismo no metrô, é mais fácil que licença de porte de arma de fogo, e nunca vai ser submetida a um plebiscito. Mas seu efeito danoso é de igual calibre. Essa situação social está muito bem refletida na CPI dos Correios e em outros cursos de gourmet políticos. Gourmet por que fabricam mais que pizzas italianíssimas, suas receitas são sofisticadas, feitas para um público de gosto apurado com a coisa corrompida. A impunidade subiu à cabeça, devorou a consciência e está com um pé na cozinha e na vida doméstica. Que o diga a santíssima mulher de Marcos Valério. E a mentira é o catalisador deste estado de coisas.
Assumir que as mentirinhas, ou famosas white lies são parte da dita inteligência social é uma conduta louvável que poucos têm. Extrapolar este limite e partir para comportamentos anti-éticos em que o eu se salva em detrimento do outro é o que muitos fazem. Ou seja, já se parte para a mentira curta, grossa e pesada, a partir do momento em que já foi estipulado que as mentiras pequenininhas são aceitas prazerosamente, como um convite para tomar um cafezinho. Mentir hoje é a mais óbvia reação. Um puro descaso com seu interlocutor e uma inaptidão para a virtude. Virtude aqui, diga-se com todas as letras, está no conceito aristotélico de moderação, de equilíbrio.
A lei prevê o direito de não responder à perguntas que possam incriminar o depoente, mas não prevê o direito de mentir, de acordo com o jurista Dalmo Dallari. Mesmo assim, e por isso mesmo, é a grande salvação da lavoura hoje. Afinal, o que está na lei é passível de punição. Não estando na lei, nada pode acontecer, oras bolas. Qual é o cretino que nunca tinha pensado nisso?
Por outro lado, contar sempre toda a verdade, apenas a verdade, nada além da verdade, é algo que nem Santo Agostinho acreditaria mais. Há realmente coisas que não são para serem ditas, como aquelas fantasias sexuais que não devem passar do sistema límbico. São pensamentos referenciais, de foro íntimo, e sua função é manter a mente relaxada com sonhos que não precisam, necessariamente, ser realizados. Opiniões descaradas e desastradas também entram nessa categoria. Sua contribuição é nula, e só servem para botar lenha na fogueira. Nenhuma desculpa posterior vai aplacar o mal em conta-gotas que causa. E nem amainar o descrédito que provoca.
Outro dia caiu na minha caixa postal um email bem curioso desse tipo. O meu conhecido, dentre um grupo de mais pessoas, recusando meu convite para um programa de viagem de final de semana, começou o texto muito curto com a verdade acima de tudo:
É um absurdo ter que parar para dizer isso. Mas é a instrução básica de hoje, é a que todo mundo tem, é mais poderosa que a licença para matar do agente britânico que não impediu o terrorismo no metrô, é mais fácil que licença de porte de arma de fogo, e nunca vai ser submetida a um plebiscito. Mas seu efeito danoso é de igual calibre. Essa situação social está muito bem refletida na CPI dos Correios e em outros cursos de gourmet políticos. Gourmet por que fabricam mais que pizzas italianíssimas, suas receitas são sofisticadas, feitas para um público de gosto apurado com a coisa corrompida. A impunidade subiu à cabeça, devorou a consciência e está com um pé na cozinha e na vida doméstica. Que o diga a santíssima mulher de Marcos Valério. E a mentira é o catalisador deste estado de coisas.
Assumir que as mentirinhas, ou famosas white lies são parte da dita inteligência social é uma conduta louvável que poucos têm. Extrapolar este limite e partir para comportamentos anti-éticos em que o eu se salva em detrimento do outro é o que muitos fazem. Ou seja, já se parte para a mentira curta, grossa e pesada, a partir do momento em que já foi estipulado que as mentiras pequenininhas são aceitas prazerosamente, como um convite para tomar um cafezinho. Mentir hoje é a mais óbvia reação. Um puro descaso com seu interlocutor e uma inaptidão para a virtude. Virtude aqui, diga-se com todas as letras, está no conceito aristotélico de moderação, de equilíbrio.
A lei prevê o direito de não responder à perguntas que possam incriminar o depoente, mas não prevê o direito de mentir, de acordo com o jurista Dalmo Dallari. Mesmo assim, e por isso mesmo, é a grande salvação da lavoura hoje. Afinal, o que está na lei é passível de punição. Não estando na lei, nada pode acontecer, oras bolas. Qual é o cretino que nunca tinha pensado nisso?
Por outro lado, contar sempre toda a verdade, apenas a verdade, nada além da verdade, é algo que nem Santo Agostinho acreditaria mais. Há realmente coisas que não são para serem ditas, como aquelas fantasias sexuais que não devem passar do sistema límbico. São pensamentos referenciais, de foro íntimo, e sua função é manter a mente relaxada com sonhos que não precisam, necessariamente, ser realizados. Opiniões descaradas e desastradas também entram nessa categoria. Sua contribuição é nula, e só servem para botar lenha na fogueira. Nenhuma desculpa posterior vai aplacar o mal em conta-gotas que causa. E nem amainar o descrédito que provoca.
Outro dia caiu na minha caixa postal um email bem curioso desse tipo. O meu conhecido, dentre um grupo de mais pessoas, recusando meu convite para um programa de viagem de final de semana, começou o texto muito curto com a verdade acima de tudo:
oi.
magali.
nao gosto deste nome...do seu....
E continuou, sobrando até para nossa língua- mãe:
estou querendo ir, so não sei como...
acho que vou descidir amanha, se vou para a luz, que acho é melhor, ou
vou
direto de mogi, de carro.
meu tel. é: 11 4798-2854
meu celular está fora de serviço este final de semana.
até.
Eu ria ao me ver livre de um embuste que arrematou que iria viajar sim, mas não sabia nem quando, nem como. Não contente, deixou o número do celular, sem esquecer de dizer que naquele final se semana ele estaria fora da área de cobertura. Não sabe nem assinar o próprio nome, e pouco se importa com isso. Sem rodeios, é o lulês do Zé Simão, mais direto impossível. Mais contemporâneo, não há. Pensando bem, é mesmo a cara do sujeito, coitado.
Mas nem todos conseguem seguir uma ou outra tendência. Os que ficam no meio são os mais perigosos. São os dissimulados, os omissos, os que não falam bem, nem mal, apenas não falam nada. Ou mudam de assunto. Deixam o espetáculo correr, batem palmas ao final, mas nunca mais são visto, nem ouvidos. Provavelmente por que estão em outras paragens já. Não criam vínculos, não se afeiçoam, não se dedicam. Vão de um lado para outro apenas pela antropofagia financeira, social ou sexual . Estes sabem manipular a mentira e a verdade. Quando contam a verdade, sabem chorar. E quando mentem, sabem negar até o fim.
Para fins didáticos nesta remodulação de tradicionais teorias da personalidade, assistam à TV Senado e TV Câmara. E vivam intensamente. Mas com precauções.