domingo, julho 03, 2005

Maçã para Eva e Branca de Neve já era....
A traição se faz agora por morangos com leite condensado

É necessária uma atualização de alguns simbolismos que sempre conduziram estórias e histórias da nossa sociedade ocidental. O velho signo da maçã como veículo do pecado e da traição mortífera, por exemplo, deveria ser substituído por inocentes morangos frescos embebidos em leite condensado. Eva e Branca de Neve sucumbiram em vão, não houve a salvação do Paraíso e nem aconteceu o amor eterno de um conto de fadas. A beleza da morte de rubi ainda é ainda o desfecho número um das maiores ilusões da vida humana. E esse fim sempre necessário pode ser muito potencializado com seletos morangos.
Servidos em pequenas porções na calada da noite, mas à vontade, morangos surpreendem a vítima e a envolvem apaixonadamente. Eles devem ser firmes, mas macios, desmanchando na boca de tal maneira que amortizem o cérebro. Devem seduzir aos poucos, gerando grande excitação das papilas gustativas e ativando o córtex cerebral com muitas informações sensoriais.
O efeito da fruta é como o de um potente láudano, vagaroso, com um leve palpitar do coração nos primeiros minutos, umas batidas mais secas, que evoluem com pungência para breves ataques de taquicardia que deixam o corpo em estado de alerta. O gosto doce sobe ao céu da boca, o olfato se arrefece. Após 12 horas, há uma dormência nas mãos, e as pernas enfraquecem. A vítima sofre, então, de amnésia anterógrada. A memória volta aos poucos, e cada vez mais forte e alucinante. O cerebelo, não se sabe bem o porquê, é o menos atingido, o que explica as reações condicionadas após 48 horas.
O pico se dá duas horas depois, com um escurecimento da visão e uma dor latejante no lobo central. A intensidade aumenta muito rápido, a hemorragia já é generalizada, e a certeza de que tudo se esvai entorpece a mente. A lucidez é nula. A loucura já está instalada, a dor é insuportável, o desespero é dantesco. O olhar não de fixa mais em nada, há uma falência da moral.
Há muito pouco a se fazer. A menos, é claro, que se conheça o antídoto. Ele deve ser produzido imediatamente, em uma reação de força e repetição. Um mantra biológico que re- conduzirá à harmonia se administrado com precisão. Serão 21 dias de foco absoluto durante a convalescência, com o cessar da hemorragia e a indução por substâncias intra-venosas da auto-reconstituição dos órgãos da vítima. O metabolismo se equilibra e as funções vitais voltam muito lentamente. Em um segundo estágio, os músculos já não estarão tão tensos, a fragilidade gradativamente diminui.
Não há estudos relevantes sobre as seqüelas de todo o processo. Cabe aqui uma observação bem acurada. E será feita.
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