domingo, outubro 15, 2006

O que você faria?


Primeiro, você deveria assistir ao filme O que você faria? (El Método, Espanha, Argentina, Itália, 2005) novamente, de preferência com alguém que converse e debata respeitosamente, inteligentemente e abertamente com você.

Você deveria repassar alguns ótimos momentos, especialmente no começo, quando o filme lembra 12 homens e uma sentença (12 Angry men, 1957, USA), o clássico filme de Sidney Lumet que dá uma aula de retórica e lógica. A apresentação de todos os sete candidatos no filme ítalo-hispano-argentino em volta de uma mesa, a maneira como o vencedor se apresenta à recepcionista, e a atitude cliché dela de desdém levantam suspeitas de que este primeiro postulante à vaga vai ganhar e ela é a psiscóloga que vai escolhê-lo. Poderia se ouvir a narração em off: ' nunca me esqueço quando entrei nesta empresa. Foi a dinâmica mais difícil da minha carreira..." E senta que lá vem a história de Carlos, o bonitão. Sim, não faltam estereótipos no filme, mas plenamente justificados, afinal, o filme é sobretudo uma exploração dos chavões mais comuns da vida corporativa, e por que não estender o conceito: vida profissional.

Você deve atentar para o jeito de Enrique, o fraco, que não se encaixa no grupo desde o começo. Tem sempre um fraco, não é mesmo? Aquele que "inflou" o curriculum. Oras, ele nunca seria o topo ( informante) e ainda foi desmascarado pelo topo himself, numa cena um tanto óbvia de
" confissão de um erro do passado", estratégia manjada para que o interlocutor também o faça.

Já a cena da saída de Ana, rejeitada por ser mulher e por ter mais de 40 anos dá o tom da dificuldade por que passa qualquer mulher, especialmente nesta idade. O que terá seu equivalente na figura do machão ibérico Fernando, derrotado pelo casal Carlos e Nieves.

Já esta última, bastião da mulher moderna, bem-sucedida na carreira e frustrada no amor, sai do prédio como quem sai justamente do abrigo depois de uma guerra nuclear, num simulacro daquele jogo característico de "quem você salvaria" e exaustivamente utilizado em dinâmicas de grupo. Aliás, este jogo do abrigo é uma âncora de neurolinguística em que se baseia o filme. Numa das melhores cenas, Nieves se joga de corpo e alma no jogo, respondendo que o que pode oferecer é gerar os filhos da próxima geração pós-catástrofe. Aparentemente, tem um problema para ter filhos e é justamente isso a que Carlos se apega para destruí-la, embora o faça naturalmente, sem nenhum esforço, algo como ir almoçar num lugar qualquer. Não há nenhuma mudança na expressão de Carlos quando ele faz isso. E ela perde a vaga, aparentemente por que se deixou destruir com a exposição de que não tem filhos ou vai querer ter filhos, justamente, com Carlos.

Outro grande momento que você deveria observar é quando alguém levanta a hipótese de que nada daquilo existe, nada daquela competição, e portanto é o grupo que faz essa prova de sua própria imaginação. Um tom surreal na concretude dos negócios.

E ainda há um sem-número de análises que podem ser feitas a partir da calculada confrontação da dinâmica em si e o protesto anti-globalização que come solto do lado de fora do prédio, mas os candidatos não podem ver. A maioria precisa ver para crer, já que os ruídos e a turbulência por que passa a cidade não os convence da possível inadequação do sistema ao qual estão querendo servir.

Mesmo sendo previsível, algo inverossímel, o filme levanta questões sempre pertientes ao mundo corporativo, como por exemplo:

A mulher deve abanadonar a carreira e ter filhos?
A mulher deve se submeter à pressão e ao assédio sexual para usá-los a seu favor, como faz Nieves brilhantemente?
O que significa exatamente lealdade à empresa?
Como se define um lider?
Sindicalista e empresário não se bicam?
E os flertes, são naturais?
Qual a ética de uma dinâmica de grupo como essa representada no filme?
Uma dinâmica de grupo é um instrumento válido para a contratação de pessoal?

Em tempos de alta crise de empregabilidade e desmantelamento de carreiras ... pense bem, caótico leitor: o que você tem feito quanto à essas mudanças?

Um agradecimento muito carinhoso à uma criatura bárbara que me indicou este filme, mais uma grande lição que aprendo com nada mais, nada menos que ... Dra. Priscilla Wacker. Palmas, palmas, palmas para ela !!!! ( Caos é ... piadas internas da vida pessoal dos blogueiros).

Foto: divulgação
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