quinta-feira, maio 26, 2005

Bienais e corporativismo

Uma nova tradição está se instalando no Brasil: o ataque cego às Bienais do Livro. Críticas cada vez mais agressivas têm sido feitas ao público, organização e lucros do mercado livreiro no país, refletidos em parte nessas grandes feiras populares. Estes eventos sempre trazem à tona tópicos não resolvidos de nossa cultura de letras: números sempre chocantes do analfabetismo, escassez de bibliotecas nos municípios Brasil afora, performance medíocre de alunos de escolas públicas e universitários de faculdades particulares, e seus correlatos.
Um contundente ataque contra tais instrumentos do mercado, mais especificamente ao comportamento do público, foi feito pelo jornalista Sérgio Augusto no Estado de São Paulo deste domingo, 22 de maio. Augusto acusa a feira de não ter tido nenhum efeito prático na valorização da leitura e boa seleção de livros do brasileiro. Foram 22 anos desperdiçados. Na sua opinião, quem se dispõe a ficar horas na fila para um autógrafo de Jô Soares, sem mesmo saber sobre o quê o apresentador escreve, tem um interesse de fachada pela leitura, contentando-se, portanto, com o verniz cultural de ter ido à feira, para usar um termo em voga. Até aí nenhuma novidade, já que isso é o que quer da vida um público que consome passivamente programas de televisão como o do Jô. Numa visão mais abrangente, é uma grande maioria que consome sem critérios produtos culturais porque não têm referências para escolher. Por outro lado, é preciso ser um tanto otimista para esperar que um evento de mercado, objetivando lucros como em qualquer outra área, venha a se preocupar em aprimorar o senso crítico do brasileiro em relação ao livro, que para gerentes de editoras não passa de um mero produto.
Em sua indisfarçável frustração ao observar o comportamento do público carioca, Sérgio Augusto comete dois erros que em nada auxiliam no debate: expõe dados estatísticos relevantes sem citar a fonte e conclama os leitores a gastarem suas energias na defesa dos direitos dos autores.
Números sobre a distribuição de livrarias no Brasil, sobre adultos ”alfabetizados afastados dos livros” ( sic) e sobre quantos livros são destinados às bibliotecas, entre outros, são jogados a esmo, sem fontes nem data de publicação, e portanto não podem embasar a afirmação de que estamos no caminho de nos tornarmos uma grande nação de ignorantes. Sem olhar o outro lado, o do governo e instituições privadas em todo o território nacional empenhadas em lutar contra a inércia educacional e a preguiça mental não é possível concluir nada.
Em reportagem da Folha no mesmo domingo, a jornalista Janaína Fidalgo não emite sua opinião em uma coluna assinada, porém informa sobre o outro lado que Sergio Augusto não analisa. O projeto do governo paulista “ São Paulo: um estado de leitores” tem chamado a atenção da mídia para seu esforço em mudar nossa realidade. Sem dúvida que há muito por fazer para essa mudança surtir efeito, porém um primeiro passo está sendo dado. Todos os municípios do estado que nunca tiveram bibliotecas têm agora uma coleção modesta para ajudar na formação de leitores. O governo federal, bem atrasado nesta luta, lançará ainda no segundo semestre o Plano Nacional do Livro e Leitura que tem como objetivo também zerar o número de municípios sem bibliotecas, porém do país inteiro. É de se esperar que as críticas da inoperância de um acervo não vá constituir leitores cidadãos, ainda por cima oferecido por profissionais não qualificados na área. Porém, o que se furta a ressaltar são as palavras do bibliófilo José Mindlin, do alto da maior biblioteca privada do país: o importante é criar o hábito. Mais que isso: difundi-lo. Não se formam leitores em uma semana, com um volume de Harry Potter. Todos os volumes da coleção, bem complementados com outras obras diversificadas e de qualidade podem, sim, instaurar o hábito da leitura.
Em seu artigo, Sergio Augusto não analisa em nenhum momento o vácuo desse hábito no público da Bienal. É uma tecla batida, mas ainda é o caminho para se mudar esse quadro. Ao contrário, expor a briga que escritores travam com o ministro Gilberto Gil para garantirem uma maior porcentagem de vendas em detrimento do pagamento de tantos impostos é uma nota de rodapé neste universo. Deve ser lida, mas sem roubar o conteúdo do texto principal. Ao enfatizar esse viés, Sergio Augusto põe a perder todo seu entusiasmo de leitor, deixando claro que por debaixo de tanta indignação os escritores é que merecem o seu. Sua postura reveste-se de um corporativismo ameaçador.
A promoção de cidadãos independentes e críticos não deveria se demorar tanto nesta questão particular. A análise sob todos os pontos de um problema é fruto de bons hábitos de leitura e discussão. Não se deixar levar por visões tendenciosas também. Vamos praticá-los.
Comments: Postar um comentário

<< Home

This page is powered by Blogger. Isn't yours?