terça-feira, abril 05, 2005
Mentes Siamesas

M.C. Esher
Bond of Union
1956 Lithograph
É de se estranhar a linha de raciocínio que o jornalista Gilberto Dimeinstein seguiu em sua coluna de domingo na Folha de São Paulo. O paralelo entre o Brasil de Severino Cavalcanti e o do vencedor do BB, o tal do Jean, tem suas linhas muito tortas e divergem diametralmente. Talvez apenas a Câmara e o programa em si possam se encontrar, lá no infinito, caso a primeira continue seu galope certeiro e alcance o segundo.
Dimeinstein frisa a relevância dos atributos do vitorioso, um gay, professor universitário, que leva a vida com certa dificuldade, como justificativas para elegê-lo simbolicamente como a cara do Brasil, lançando o dito “Brasil de Jean”.
Do outro lado, o confronta com o “Brasil de Severino”, o do baixo clero, que puxa o alto clero, e o presidente de lambuja, numa carreata devastadora na vida do cidadão brasileiro.
Se com Severino já era uma realidade querer um país novo, com seu comparsa Jean é uma questão de sobrevivência na selva, com o leão na sua nuca, a sucuri no seu tornozelo e a febre dilacerante da dengue escurecendo seus olhos. Dimeinstein é cruel, e não nos dá opção. É morrer ou morrer.
Mas, morrer pela manipulação da mídia não parece um motivo digno. Ainda por cima por uma manipulação em doses cavalares como essa, cerceando qualquer atitude, voz ou pensamento que consiga juntar os paus para fazer a canoa para fugir dessa floresta maligna de contos de bruxas que existem mesmo.
A clareza do texto que segue abaixo, de Carlos Abdalla de um certo Grupo Educare, sobre o papel de qualquer professor, sopra uma brisa de lucidez. É improvável que atinja quem está à frente da tv consumindo a vida nos moldes do Paleolítico, mas traz alento para quem acredita que professor universitário não tem nada a ver com esse factóide.E nem ele nem nós.
Mestre no afeto
Este artigo é uma crítica. Como toda crítica, deve se propor, antes, a ser uma autocrática. Quando falamos das fraquezas de nossa profissão, é bom que não fiquemos acima dos fatos.
A questão da competência do professor vem desafiando todas as tendências e propostas pedagógicas contemporâneas. Temas transversais, aprendizagem sociointeracionista, propostas com base na construção do conhecimento, erro pedagógico são peças de ficção, se distanciadas das relações de afeto que se interpõem entre todos os membros da comunidade educativa. Colocar a questão da aprendizagem na relação professor/aluno é, no mínimo, simplificar o problema da não-aprendizagem.
O que se vê e que estarrece a nossa visão de educador é que a escola, cada vez mais, finca pé na ilusão da efetividade, da eficiência, do resultado, sem se dar conta de que a figura do professor vem sendo massacrada pela desmotivação, pela falta de atualização, pelo deboche e estresse de um aluno rico de informações soltas e desordenadas, de um aluno que vive num festival de culturas mal assimiladas, fascinado pelos balangandãs culturais globalizados.
Valorizar a conduta do professor é pressuposto de qualquer projeto pedagógico. Valorizar, principalmente, e antes de tudo, a sua natureza humana, a sua pessoa, prestigiando o seu caráter, abrindo-lhe espaço para a franqueza, buscando a capacitação que tenha foco no aspecto cultural de sua formação.
Não basta mais o professor saber literatura - as propostas modernas implicam que ele tenha uma cultura literária. O trabalho de um professor de Física há de se tomar muito mais efetivo se ele tem uma sólida cultura científica. É essa cultura que o aluno espera do professor. É com essa argamassa que o aluno quer construir o conhecimento, aprender. "Duro com duro não faz muro", diz o ditado. Informação por informação, a desornada e assistemática será sempre mais atraente, porque se enriquece na curiosidade
A verdade sempre está à nossa volta: nos cursinhos, para prender a atenção do aluno-cliente, o professor trabalha o afeto; o afeto da contracultura anedótica, o afeto da cultura musical em paródias, o contexto erótico-sensual do adolescente. Sempre vence a contextualização cultural.
O resgate de um professor culto de idéias, de experiências, de informações, de dúvidas, de angústias vai substituir a perda do professor culto de erudição, cheio de personalismo e de verdades imutáveis. A fragilidade da informação moderna se contrapõe a toda forma de inflexibilidade didática.
Alguns leitores, certamente, reagirão ao insólito das idéias aqui expostas. Cultura é afeto? Cultura é aprendizagem? Se o leitor vai ao dicionário, verá que todas as definições de cultura estão intrinsecamente ligadas à emoção, à evocação, a crenças e, por extensão, a valores, à ética, à conduta do grupo. E todos já aceitamos que sem grupo não há aprendizagem.
Uma vez adultos, de que professores nos lembramos? Com que professores aprendemos alguma coisa? Certamente com aqueles que contavam histórias, que nos envolviam com informações insólitas, que dispunham de uma personalidade cheia de afeto, de pequenas emoções, às vezes até pelo contraditório de sua natureza
Esta ação pedagógica com ênfase no elemento cultural já é muito bem-sucedida no jardim e nas primeiras séries do ensino fundamental, onde a aprendizagem, todos sabemos, é muito competente, dentre outras razões, porque toda a comunidade interage no processo, e também porque o compromisso com a informação é colocado em outro plano, com forte valorização no elemento cultural.
A cada dia sentimos que ao homem restará o afeto, a boa convivência, o bom entendimento, sem o que não haverá planeta, não haverá vida. Nesse sentido, as culturas antigas e populares se divertem ante a rigidez das culturas recentes e bem-comportadas.
Penso que as grandes escolas se enganam quando acham que gerentocratas eficazes, cheios de regras de qualidade, vão substituir o lado humano, repito, tão massacrado do professor, ou que o chão da escola possa prescindir de calor humano. Mesmo porque todo o fundamento da qualidade está centrado no lado humano e criativo das pessoas. O resto são ferramentas. As pequenas escolas também se enganam quando entram na corrida da efetividade pela efetividade e no marketing do resultado, abrindo mão de suas relações de afeto. Uma espécie, assim, de distorção dos verdadeiros conceitos de qualidade.
Muito mais que conhecimento e informação, o professor tem de dar de si a compreensão do humano, do humor, da tragédia, da vida, do cotidiano de incertezas da humanidade, pois que tudo que dá dimensão ao homem tem de ser eivado de valores, de crenças e de piedade. O homem bem-sucedido é o homem amável, afetuoso, sociável e flexível. Será cada vez mais assim.
Vale como reflexão olhar as culturas antigas, onde todo mundo é professor - os pais, os tios, os avós permeando afeto em culturas orais complexas e consistentes, cuja aprendizagem povoa a natureza humana para sempre.