domingo, abril 17, 2005

Eu, Presto.
Me chamaram aqui para dar meu depoimento também, em conformidade com o mais recente exemplo de amigos meus que apareceram numa revista de amenidades que sai todo domingo, vinculada a um grande jornal paulistano. Como nunca tive voz antes, até que esta experiência pode ser interessante. Precisamos ouvir a nós mesmos de vez em quando.
Como meu amigo Tadeu, o siamês que cuida do Aguinaldo Silva, eu também cuido de um ente humano. Seu nome é Thomas, o português de silício. Como ele ainda é muito jovem, vive com outros iguais a ele. Um dia talvez, viva com uma versão ao seu avesso, no caso, uma Thomasilda, ou uma mulher, no bestiário humano. Apenas um apontamento: no nosso dicionário, de animais irracionais, uma besta é uma criatura de qualquer outra espécie que é excessivamente racional. Já conheci a Dani, a pequena grande mulher que conquistou seu coração uma vez. Eu sinto falta dela, e tenho certeza que ela também sente saudades de mim.
Na linguagem de gajo do Thomas eu sou um puto, um carinho que ele me dá por eu ser menor que ele. Ele também me pega de uns jeitos estranhos, me aperta e pode até gritar comigo, um outro carinho que ele me dá. Eu não ligo, sei quem manda em quem. Como diz o Tadeu em relação ao Aguinaldo,
nossa proximidade física também é um problema. Gostamos de tocá-los, mas detestamos que ele nos toquem.Os humanos são grandes, e nós nos sentimos melhores se os virmos apenas de uma certa perspectiva. Qualquer mudança de ponto de vista nos afeta. Eles não entendem, e às vezes precisamos reagir com autoridade, e isso inclui até o uso de dentes e garras.
Eu tenho isso bem resolvido na minha vida. Não sou arisco, e deixo fazerem o que quiserem comigo. Claro que também faço o que quero. Dormir nas cadeiras estofadas da sala de jantar é entrar em alfa, e ninguém tenta me tirar de lá, aprenderam a me respeitar. Quando quero distrair meu paladar, me sirvo à vontade das carnes deliciosas que o Walter, que mora no quarto da frente, prepara para os seus churrascos. Como meu amigo Oliver José, o siamês do Luis Rufatto, tenho que ouvir que estou fazendo uma bobagem.Também não entendo, amigo Oliver, como eles podem classificar isso de bobagem.
Esse Walter é um cara estourado, mas eu sei que ele tem um coração de ouro. Eu gosto dele e só meu fiel amigo Tadeu pode explicar isso:
(...) até que sabe lidar bem com a solidão e a tristeza que sempre o acompanha. Durante algum tempo, viveu à procura de companhia, ainda sem saber que era eu quem estava destinado a lhe dar isso, e foi quase sempre infeliz. Um dia desistiu e mudou; tornou-se mais maduro, mais confiante. E agora, quando sai de casa, mesmo que demore, já me preocupo menos com ele.
Esse sentimento eu já compartilhava com outra mulher que passou por aqui, uma Walteriana por excelência, que tentava entender o porquê de eu ser um gato. Acostumada com cachorros, ela que correu atrás de mim para tirar todas essas fotos na sua maquininha digital numa ansiedade só em descobrir os meus mistérios. Na continuação da sua pesquisa, ela me ofereceu este espaço cyber para eu me explicar um pouco. Além de ter inveja dos cachorros, parece ter inveja dos gatos também. Quer ousar a irracionalidade, mas cá entre nós, vai procurar o que fazer na vida, heim.
Além do Walter, tem o Camilo, que mora no quarto de portas de lavanderia. Ele tem uns olhos azuis fixos, parece um felino. Eu o entendo mais facilmente por causa disso. Mas sou muito mais ágil, obviamente. Nunca vi nenhuma Camila, ou se vi, não me lembro, não presta ficar vigiando a vida dos outros. Mas sei que ela um dia vai aparecer e roubar o coração capixaba dele. Ele é um moço de família, muito sério e correto. Já sabe lavar a louça e varrer o chão, está aprendendo a cozinhar agora. Um pedaço de mau caminho engatado no caminho do altar, sorte da tal da Camila que o encontrar.
O meu dia a dia é muito tranqüilo, as noites é que são agitadas. Mas sigo meu dito PCC
(provedor-de colo-e -carinho), como diz a divertida da Minolda, a TL do Ricardo Bonalume Neto. O Thomas e seus comparsas nunca vão para cama cedo, e cedo para eles é três da manhã. Muitas vezes chego das minhas atividades esse horário e ainda posso aproveitar esse tempo prazeroso ao lado deles. Eu os sinto o tempo todo, como o Tadeu faz com o Aguinaldo, mesmo que eu esteja fora. É meu sétimo sentido em sua melhor forma. Por isso não preciso dar nenhuma satisfação de onde fui, com quem, por quê, como. Isso é a verdadeira liberdade. Isso é vida de gato, cada um com suas regras, e todos em harmonia. Sinceramente, acho que Platão invejaria essa República. Aqui, a dialética é única e a mitologia é apenas uma atividade noturna.