domingo, abril 10, 2005

Acordem! Vocês estão perdendo o curso das coisas!


Camille Paglia

Se experiência de vida pudesse ser passada para nós como se passa uma taça com o mais fino vinho para brindarmos uma ocasião especial, tudo seria muito fácil. Mas, não é isso que acontece. Temos que dar com a cabeça na parede, esmigalhar os miolos, e engolir a burrada para começar tudo de novo, desta vez certo. De maneira semelhante, também não podemos ter razão o tempo todo e o desgaste de uma discussão para que nosso ponto de vista seja reconhecido, deveria ser o último dos recursos. Neste caso, o tempo ainda é o melhor aliado. A alegria em descobrir que outra pessoa tem a mesma opinião sobre um assunto que sempre foi motivo de espinafradas e esporros no passado traz a razão perdida ao presente. E junto a confiança. Muitas vezes, só passar e sofrer uma experiência parecida pode fazer convergir opiniões. Amadurecer com lágrimas, infelizmente, ainda faz parte indissociável daquele processo que por vezes fica em segundo plano: crescer, enxergar a si mesmo e ao outro, sair da repetição de modelos falidos de lógica e de conduta.

Para facilitar esse alcance que vira e mexe nos falta, há boas ajudas dando as caras por aí. Há simples mortais que, numa mesa suja em um bar agradável, podem mais que consertar o país, como supõe nosso fake José de Alencar, o vice-presidente de Lula. (Nosso lendário escritor romântico nunca teria se debruçado sobre o insolvente sob pena de lhe dar prazer eterno). Mas essas mesmas doces criaturas sim, podem fazer mais. Podem consertar pedaços tortos de vida que não se encaixavam na engrenagem. Isso poderia ter ocorido em qualquer lugar da cidade, numa noite comum, apenas com três mulheres. Ou com duas amigas que voltam a se encontrar depois de muitos anos. Ou nos dois casos.

É é para essas criaturas que sabem entender o que ouvem e vêem com lucidez e inteligência que Camille Paglia escreve. A ensaísta americana está de volta com “Break, Blow, Burn”( Editora Pantheon Books). São 43 poemas, de William Blake a Joni Mitchel, que cedem suas cores e odores à análise de Paglia.

A escolha de poemas já vem com uma justificativa bem pop, ao estilo da escritora: “ o poema curto é equivalente à uma canção, que se escuta inteira no rádio, ou a uma pintura, que se pode ver isolada” Não há tempo disponível hoje para os romances, que exigem semanas para serem lidos, sustenta ela, dando como exemplo a ficção anglo-americana atual, muito pobre, e perdendo terreno constantemente para “a vitalidade” do cinema e da TV. Aqui está o único porém de Paglia: essa premissa é muito pobre, não se pode transferir as linguagens de mídias tão diversas, em conteúdos e objetivos, e esperar o mesmo efeito. O que se faz hoje, abundantemente, nesse sentido resulta em algo diferente de sua gênese. Certamente ela foi novamente astuta para angariar atenção, como boa democrata que é, afinal, o melhor está em suas observações críticas, não em suas justificativas.

Paglia é uma humanista moldada em Longino, Sófocles e Ésquilo que sente o vácuo que sua geração não preencheu devido, entre outras coisas, às muitas viagens com drogas. Acusa o que se tem de história hoje sobre os anos 60 de caricato, a revolução artística em curso na época perdeu vozes para a heroína e a cocaína. Mentes brilhantes que se deixaram levar pelo prazer cósmico, numa busca de uma percepção cósmica. “Os indivíduos mais avançados, mais aventurosos, mais prontos a romper com os limites tradicionais” foram também os mais ingênuos em crer que as viagens lisérgicas eram a panacéa. Isso deu espaço, então, para as figuras mais convencionais, mais conformistas assumirem o posto de herdeiros dos anos 60. Para Paglia, isso é uma audácia. Trocando em miúdos, cheirar, beber, fumar todas destrói qualquer brilhantismo, mas isso qualquer idiota sabe.

Como todo mundo sabe que ler é um hábito saudável, mas poucos se engraçam numa página de livro, concentrados e interessados. O que não está na grande rede simplesmente não existe para boa parte da população. A identificação de fontes idôneas, consulta à obras de referência e textos de qualidade nem passa pela cabeça do cyber leitor. Além de viciado, ele se torna crédulo do que vê na tela. Provavelmente tem o mesmo olhar para a tv.

E também sobra para o passado recente de Paglia. Da mesma maneira que colocou lenha na fogueira do feminismo com “Personas Sexuais” ( Cia. Das Letras), agora ela joga uma pá de cal sentenciando o seu esgotamento, pelo menos nos EUA. Defende sua visão de oportunidades iguais para todos, sejam quem forem, ( afinal, já diz a sapiência popular que querer ser igual aos homens é falta de ambição da grossa) e de reconhecimento das diferenças sexuais. Se este reconhecimento vier recheado com respeito, tudo bem.

Mas é no conceito de qualidade que a escritora mira o tempo todo. Sua fala agressiva contra a mediocridade da música, da poesia e das artes em geral é convincente: os artistas são talentosos, mas sem a visão necessária para produzir uma obra que “perdure por gerações”. Diz: “ O jeito de brigar é fazer coisas que durem, querer fazer coisas que durem. E que falem a todo mundo (...) Já é hora de redescobrir a beleza, redescobrir o prazer, coisas que têm que voltar ao centro da arte, se se quer falar de novo ao público não especializado.”

E finaliza: “Quem não aceita isso é gente muito pequena, de imaginação pequena”.

E quem pode retrucar Camille Paglia?

Entrevista de Camille Paglia publicada pelo Caderno Mais de Folha de São Paulo, 10 de abril de 2005.


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