quarta-feira, março 23, 2005

Deplorável

Historicamente, a mulher sempre foi relegada a segundo plano, tendo poucas ocasiões para realmente fazer valer sua voz. Colecionou estigmas que ainda a perseguem no grande século da informação no qual vivemos. De simples procriadora no Neolítico, passou a deusa da fertilidade e ponto nevrálgico da família no Egito a sexo fácil nos dias de hoje. Acompanhe um pouco desse processo:




Autor: Flávio Rezende de Carvalho
Título: Nu Feminino Deitado / ost, 31 x 55 cm., Masp





A Mulher era SUPERIOR na Pré história.

Nas sociedades do mundo todo, que eram matricêntricas, a fertilidade que carregava lhe dava privilégios. Ela não dominava, mas era a célula primeira das sociedades pré-históricas. Por isso era elevada à categoria de divindade, como denotam vestígios paleolíticos de estatuetas femininas e pinturas e objetos encontrados em cavernas. O judaísmo ainda é assim: só é judeu quem é filho de mãe judia. Apenas pai judeu não dá descendentes para a raça.


A Mulher SUPERIOR/INFERIOR e o contraste na Índia

Em 1148, no sul deste país, escrituras registram que mulheres administravam vilarejos, cidades e instituições religiosas. Elas gozavam dos mesmos direitos que hoje são reservados aos homens.
Alguns anos mais tarde, em 2004, mulheres do sul da Índia temem por sua filhas, que aos 11 anos são raptadas para trabalharem como prostitutas. As mães, então, doam-nas à maridos previamente arranjados para que cuidem delas a partir dessa idade.

Até o século 17 predominava a Mulher Inferior ou A primeira mulher


A melhor mulher é aquela de quem menos de fala”, como dizia o grego Péricles.

Aos poucos, a reprodução foi sendo vista de maneira diferente e a mulher deixou de ser o centro das sociedades. Isso começou a acontecer quando o homem abandonou a caça e passou a domesticar animais. Percebeu pelo comportamento dos animais que o macho tinha papel preponderante na procriação em muitos casos. Aqui também se instituiu a monogamia, reflexo do pensamento que, para que o homem pudesse ter certeza de que o filho gerado era seu, a mulher não poderia ter feito sexo com mais ninguém. O passo seguinte foi a mulher ser considerada propriedade do homem. Para o filósofo alemão Friedrich Engels, no clássico A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, esse conceito surge com a idéia de propriedade privada e com a preocupação com a herança. A mulher está depreciada, sua inferioridade era anatômica, e assim continuou pela maior parte da história. Há uma herança cultural negativa no fato da mulher não exercer cargos públicos. Porém, isso não significa que a mulher não tinha poder.
O poder da mulher era exercido da maneira que era possível, como no exemplo histórico das bruxarias na Inquisição durante a Idade Média, que só por conhecerem ervas e assim curarem pessoas, foram queimadas na fogueira.

A partir do século 17, a Mulher enaltecida, ainda não era superior.

A segunda mulher, “ A melhor mulher é a de quem mais se fala”, mudou o mote de Péricles.

Com a Inquisição, o mundo inflamou-se em guerras e ódio. Para amenizar esse clima, a Igreja lançou uma campanha em favor do amor romântico. Organizava festivais artísticos com dança e teatro em que promovia as donzelas e os sentimentos amorosos. A beleza agora era um atrativo e não mais uma armadilha, surge o culto à dama amada. O casamento deixa de ser um negócio e foca no afeto. O romantismo projeta a mulher.
E vem em seguida o Iluminismo, com sua defesa dos direitos dos indivíduos, e nessas, valorizou-se a maternidade novamente. Começa o quadro que temos até hoje, hipócrita e humilhante: o paradoxo da mulher- mãe dentro de casa, célula matriarcal; mas sem direitos políticos nem sociais fora de casa.

O feminismo do século 20 – A mulher é sujeita de si mesma.

A terceira mulher

Agora, cansada de subordinação, a mulher quer decidir seu destino. Ninguém mais define o que as mulheres têm que ser. Ela aprende a escolher. E escolhe participar cada vez mais efetivamente do campo ainda restrito aos homens. Porém, ainda ganham menos, mesmo tendo, em média, um ano a mais de escolaridade que os homens.
Um tapa no feminismo: no livro Crítica a Tolice Feminina, a socióloga Agenita Ameno sustenta que o modelo de mulher emancipada que o feminismo trouxe é tão somente um modelo criado pelo sistema capitalista. Isso baseia-se no fato que a mulher é 50% do mercado consumidor no mundo, e subindo. Tudo o que afeta a mulher reflete diretamente no caixa do mundo capitalista. Um ótimo exemplo é a grande evolução que a indústria cosmética teve nos últimos anos, impondo uma transformação constante no corpo feminino, para que ela possa exercer melhor seu papel de protagonista. É bom lembrar que a figura feminina é inegavelmente centrada no simbolismo do corpo, com o útero como maternidade, e os seios e a vagina como atração sexual e pecado.


Mesmo com muitas conquistas, a sociedade masculina ainda faz pouco caso das mulheres. Ganhamos 43% menos que os homens para fazer o mesmo trabalho, mas somos uma fatia expressiva da população economicamente ativa ( 42,67%). A expectativa de vida da mulher é de 74,29 anos, enquanto a do homem é de apenas 66,71%, portanto fazemos parte da maioria da população ( 86.223.155, contra 83.576.015 de homens). Mesmo assim, nossa participação política continua irrisória: os dados de 2002 e 2004 divulgados pela Folha de São Paulo contabilizam apenas 2 governadoras no Brasil entre 25 homens, 8 senadoras entre 46 senadores, 42 deputadas federais entre 471 homens, 129 deputadas estaduais entre 906 homens, 408 prefeitas entre 5.113 prefeitos, 6.549 vereadoras entre 45.278 homens e nenhuma mulher presidente, como sabemos.

É muito triste constatar o descaso que ainda se tem hoje pela mulher, um mero objeto para a mídia e para muitos grupos sociais, mesmo ela tendo provado sua competência e destreza em áreas até então dominadas pelos homens, como economia, física, engenharia, medicina e tecnologia. Frente a uma jornada diária tripla, a mulher não arrefeceu e assumiu seus papéis integralmente. São muito comuns famílias chefiadas por ela, tanto financeiramente como socialmente. Apesar disso, o maior mácula na vida da mulher brasileira é a violência doméstica: a cada 15 minutos uma mulher é espancada no país, de acordo com dados de 2004 da Fundação Perseu Abramo.







Há outras formas de violência já enraizadas na sociedade, como a violência moral. As velhas piadinhas sexistas que rebaixam a mulher ao terceiro escalão da espécie humana frente aos homens ainda permeiam rodinhas de papo furado em churrascos, festas e ambientes profissionais. O velho jargão”...mas é gostosa” é mote muito difundido hoje.
Não interessa se a mulher é gorda, magra, feia, bonita, chata ou gente fina, burra, inteligente, morta ou viva. Se ela for gostosa já cai nas graças da matilha, que não passa de uma vítima abobalhada da erotização feroz da mulher, desde tenra idade. O individualismo, o desemprego e a tensão do dia-a-dia também acirram esse machismo inescrupuloso, mas mencionar isso é posar de feminista sapata, que por sua vez, não tem nada a ver diretamente com a história, diga-se de passagem.

O fato de estarmos no século da informação também não traz luz nenhuma para muitas mulheres, que, por outro lado, misturam os canais quando fazem valer seus direitos recém- adquiridos ou a conquistar. As arrojadas caçadoras de homens podem se travestir fofamente de galinhas em nome da igualdade dos sexos. São débeis criaturas para quem há o ditado: “A woman who equals man lacks ambition”. Fazer sexo como os homens, ou seja, transar e não sentir nada, de acordo com a ousada e bem sucedida série americana Sex and the City, é inútil. No final da série americana, ambos vão conviver e estabelecer algum tipo de relação e terão que equacionar suas diferenças da melhor maneira possível. O clichê vence, a mulher se submete aos padrões exploratórios de gênero em nome de sua família. Mais que um romantismo antropológico, o que manda aqui é a sobrevivência do equilíbrio emocional da mulher frente a todas as responsabilidades que assumiu. Alienadas a tudo isso, muitas mulheres se jogam no ringue a partem para o corpo a corpo na guerra da sedução, deslumbradas com uma falsa promessa de independência feminina. Cantar e catar homem como os homens fazem com as mulheres não tem nada de independência feminina, e sim, uma nova vertente de um neoliberalismo social que enche o ego na hora do orgasmo e esvazia a mente com o passar do tempo. É o imediatismo, a ganância, a competição, a conhecida inveja que as mulheres nutrem umas pelas outras, a mais valia em seu pior estado. Esse comportamento já é reconhecido pelos próprios homens, que ainda estão confusos com tanta danação. Não sabem se devem confiar ou não, sabem que quando a esmola é grande o santo desconfia. Mas, mesmo acuados, se rendem felizes e orgulhosos.

Os que já sacaram, que são raríssimos, já são indiferentes a essa mediocridade e demonstram uma sensibilidade tocante. Não desprezam suas mulheres nem as do próximo, e sabem que a dedicação e amor que recebem hoje só tendem a aumentar quando elas são respeitadas integralmente. São muito privilegiadas as mulheres que têm junto a si um homem à frente de seu tempo, que enxerga na sua companheira e em todas as mulheres uma força muito profícua a favor dele, e nunca contra.

Também as mulheres que estão solteiras por opção não têm tarefa fácil pela frente, mas sabem dar-se valor. Elas são 52,12% das mulheres brasileiras, de acordo com o IBGE em 2004. Sentem na pele uma dilacerante competição entre trabalho, realização profissional e financeira, vida amorosa (não necessariamente conjugal) e o chamado para a maternidade. Desdobram-se para conciliar tantos desejos que muitas vezes tornam-se papéis sociais.


Para dar um gostinho do deprimente cenário predominante hoje, aqui estão bons exemplos de um anedotário do machismo, uma lista de diletantes de rock antigo. Apesar de não merecerem, seus nomes foram preservados, afinal, são meros ícones de um comportamento deplorável. Seguem os comentários, quando relevantes.


Mensagem: 1
Data: Tue, 22 Mar 2005 11:54:22 -0300 (BRT)
De: (censurado)
Assunto: As maiores ex-gostosas do rock antigo

Na minha humílima (sic) opinião, as duas maiores ex-gostosas do rock
(empatadas) foram:

- Sonja Kristina (para quem não conhece, vocalista do Curved Air),

- Stevie Nicks (para quem não conhece, vocalista do Fleetwood Mac).

A primeira, nasceu em 19/04/1949.

Portanto, vai fazer 56 anos no mês que vem.

Stevie é um ano mais velha.

Nasceu em 26/05/1948.

Fará 57 daqui a dois meses.

Too bad.

Eu sei... eu sei... elas são coroas ajeitadas.

... mas jamais serão lindas como foram.

Como diria Buda, a vida física é o império da impermanência e do
sofrimento.

Saudações um tanto melancólicas.

(censurado), que fará 47 anos em agosto e que quer morrer antes de
chegar aos (argh!) sessenta.

PS - Tudo isso porque, ontem, escutei Sonja na flor da idade, no LIVE
AT THE BBC do Curved Air.

Mensagem: 11

E o infeliz ainda repete:


Vou repetir o disse na minha primeira mensagem sobre
> o tema ex-gostosas:
>
> - COMO DIRIA BUDA, A VIDA FÍSICA É O IMPÉRIO DA
> IMPERMANÊNCIA E DO SOFRIMENTO.
>
> HE HE HE...
>
> Ou será BUAAAAAAAAAAAAÁ?
>
> PS - Grace Slick, que também era muito bonita, está
> uma vovó gordona (peçam o verbete "grace slick" na
> opção de imagens do Google).



Comentário: um retardado desses que não sabe português, não sabe contextualizar os ensinamentos de Buda não deveria nem ter nascido.

Mensagem: 11
Data: Tue, 22 Mar 2005 21:01:36 -0300 (ART)
De:(censurado)
Assunto: Re: As maiores ex-gostosas do rock antigo

É verdade, recentemente vi a Grace Slick num dvd do
Jefferson Airplane e a palavra que resume ela é:
DEPLORÁVEL!


E que vivam as putas, as verdadeiras mulheres que sabem como domar os homens, e ainda saem com a grana.

Ainda em tempo, notícias sobre as discussões sobre a lei que pune o aborto, pauta de tópico sugerido.

Qua, 23 Mar - 08h07
Governo vai rever lei que pune o aborto
Agência Estado



A secretária especial de Políticas para as Mulheres, Nilcéa Freire, anunciou ontem que será instalada no dia 6 de abril a comissão que vai revisar a legislação que pune a prática do aborto. O grupo, que será formado por representantes do Executivo, do Legislativo e da sociedade civil, terá 60 dias prorrogáveis por mais 60.
A secretária convidou para compor a comissão o Conselho Nacional das Igrejas Cristãs (Conic), mas a entidade deve recusar-se a participar da discussão. O convite ao Conic foi feito por Nilcéa Freire porque o governo tem interesse em discutir formalmente com os principais críticos da proposta de revisar a legislação que trata do aborto. A comissão será responsável por analisar cerca de 48 projetos sobre o aborto que tramitam na Câmara e no Senado.

Críticas


A data da instalação da comissão foi confirmada por Nilcéa no lançamento da nova política de planejamento familiar e direito sexual do Ministério da Saúde, lançada em meio a críticas da igreja católica. O programa prevê, desde a ampliação da oferta da chamada pílula do dia seguinte, até a divulgação de uma cartilha com novas regras que dispensam a apresentação de Boletim de Ocorrência policial para a prática de aborto na rede pública de saúde em casos de estupro.
A cartilha, que trata da nova norma técnica com informações sobre atendimento de vítimas de violência sexual, traz até mesmo recomendações sobre os tipos de procedimentos para interrupção da gravidez. O documento, a ser distribuído aos profissionais da rede pública de saúde, contém detalhes sobre os vários métodos de aborto e dá orientações sobre a necessidade de determinar a idade gestacional para aplicação do método correspondente. São citadas formas de interrupção da gravidez, como a aspiração a vácuo intra-uterina e o uso de drogas.
Por meio da cartilha, os médicos serão orientados a não fazer o aborto após 20 semanas de idade gestacional. Entre as exigências do Ministério da Saúde está a necessidade de os profissionais aplicarem tratamento adequado para casos de complicações após o aborto, como infecções ginecológicas.

http://br.news.yahoo.com/050323/25/srnt.html
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