terça-feira, janeiro 11, 2005
Zé Rodrix mesmo.
Ninguém pirateia o que não é sucesso
disse uma vez o ilustre José Rodrigues Trindade ao jornalista Omar Godoy.
Devolvendo o carimbo de pirata à mãe e à indústria fonográfica, por não numerar seus cds, esse fulano dá de ombros à crise das grandes gravadoras, alimentando os mares selvagens com cópias de seus trabalhos, especialmente os da sua carreira solo, que nem em cd saíram. Exceção feita à sua primeira bolacha, Acto I ( 1973). Esse é um Zé que faz a festa de colecionadores de vinis. É um Rodrix.
Um arauto da contracultura, mas com poses de bobo da corte. Inteligência afiada destilando novos produtos químicos etéreos, sempre mais e melhor.
Sempre plugado na tomada e observando os movimentos solenes e bruscos ao seu redor, Zé Rodrix não desperdiça energia. Segue contra o comodismo pungente da grande maioria da pessoas como fazia lá pelas tantas de 25 de novembro de 1947, no Rio de Janeiro, quando nasceu. Para quem tem gosto enciclopédico compulsivo, uma dica só das partes mais importantes (http://www.revivendomusicas.com.br/biografias_detalhes.asp?id=283) da carreira de Zé Rodrix :
1. Seu pai era mestre de banda e com ele Zé carregou-se de paixão pela música. Em plena Bahia.
2. De 1953 a 1963 estudou teoria, solfejo e acordeom no Conservatório Musical do Rio de Janeiro e harmonia e contraponto na E.N.M.U.B. Resultado: toca piano, órgão, acordeom, flauta, sax-alto, trompete e ocarina. Quer trégua, já?
3. Com 19 anos já era profissional no Momento-4, descoberto e incentivado por Aluísio de Oliveira. Ricardo Villas ( antes Sá) e Maurício Maestro ( antes Mendonça) eram seus companheiros de vocalizações. David Tygel dava o toque final.
4. Estreou na composição com Gloria, um maxixe gravado em 1966 com o Momento.
5. Com o conjunto, apresentou-se no III FMPB, da TV Record, de São Paulo SP, em 1967, acompanhando Edu Lobo, Marília Medalha e Quarteto Novo em Ponteio (Edu Lobo e Capinam). Ficou com eles até 1968.
6. Entrou no Som Imaginário, onde ficou de dezembro de 1969 a julho de 1971. Pode assim, além de fazer shows e gravações individuais, acompanhar Gal Costa, no show Deixa sangrar (1971), e Milton Nascimento, em shows e no LP Milton (Odeon).
7. O primeiro sucesso veio em 1971 ainda com seu rock-rural Casa no campo (com Tavito), classificado em primeiro lugar no Festival de Juiz de Fora MG e gravado por Elis Regina.
8. Na virada para 1972, se junta a dois músicos de mão cheia e temos o trio Sá, Rodrix e Guarabira, com o qual gravou, na Odeon, os LPs Passado, presente, futuro e Terra, cujo maior sucesso foi Hoje ainda é dia de rock, de sua autoria, mas Mestre Jonas deve ser ouvida com atenção. Qual banda holandesa de progressivo vem à cabeça instantaneamente?
9. Levantou vôo solo em 1973, e como bem se diz por aí, com o rock na bagagem,
deixando o rural na terra mesmo, para Sá e Guarabyra regarem. Seu Acto I saiu em 1973.
10. Zé Rodrix e a Agência de Mágicos lançaram Quem sabe sabe quem não sabe não precisa saber no ano seguinte. Visionário, antecipou-se ao sucesso de Tim Maia misturando rock psicodélico e metais neste trabalho.
10. De olho gordo no sucesso de Rodrix, Roberto Marinho e seus capangas o pegam de jeito e depois o largam na estrada. Saldo: O espigão e Corrida do ouro, temas de novela.
11 Finalmente cai na feijoada e acha seu Joelho de Porco em 1982.
12.Ganha muito dinheiro com seu estúdio de jingles, A voz do Brasil. É a Voz que criou o jingle para a Casa das Cuecas de 1995 e o memorável De mulher pra mulher... Marisa !, da rede de mesmo nome.
13. Uma reunião com Sá e Guarabyra o anima a compor por inspiração em 1994, não mais por encomenda. Participa de um trabalho da dupla.
Agora, depois que você leu tudo, guarde apenas que Zé Rodrix queimou neurônios no Momento Quatro, viajou com o Som Imaginário, inundou mentes absortas com um arranjo para Fala, com o Secos e Molhados ( 1971), brincou com o Clube da Esquina com os Borges e Milton em 1972, e escaldou-se com o Joelho de Porco. De lá pra cá, perambula em mensagens subliminares emitidas pela caixa de tv guiando, sorrateiramente, nossos desejos.
Pouca coisa? Tem mais o Zé Rodrix escritor, com Construtor de um Templo.
O Zé Rodrix do teatro, com texto do musical Heleno, um Homem Chamado Gilda em parceria com Miguel Paiva, para a Dança e Cia. Centro de Artes.
O Rodrix do cinema fez Esquadrão da Morte, com Carlos Imperial, e Como era gostoso meu francês, de 1970, do Nelson Pereira dos Santos, aquele mesmo que teve problemas com a censura e foi liberado face ao argumento patético que nudez de índio não era pornográfica.
Nas horas vagas, ele descobre talentos, rubricando inovadas e arrojadas propostas.
Não à toa é padrinho e produtor artístico do trio de power caipira, Rossa Nova, para meter medo em Rassa Negra batido no liquidificador com Zezé di Camargo. O trio tem tour agendada para 2005 sob a batuta de Rodrix. Antes, fez parceria com Reynaldo Bessa, cantor e violonista potiguar.
Para dar uma variada, Zé já passou pelos palcos interpretando Cole Porter e dá canjas em shows de antigos e novos parceiros.
Tudo isso em nome de uma só verdade: quem sabe sabe, es latino, quem não sabe não precisa saber.
In: Zé Rodrix I - para Walter N@p@ Rodrix, fonte de inspiração para tudo.
Nota: O suspense continua: como terá morrido Enrico Simonetti? Aguardem próximas edições.