sexta-feira, janeiro 21, 2005

Ruy Guerra mutilado, esquartejado e jogado ao povo.


Plágio e manipulação de idéias dos outros é uma herança clara do romantismo no séc. XVIII. No auge do Renascimento, no século XVI, desenhos e projetos eram copiados livremente sem detrimento do valor da obra. Apenas em 1710 criou-se a primeira lei do direito autoral, na Inglaterra. Porém, a discussão dos direitos autorais é muito nova, e merece o dobro de atenção e cuidado. Ainda não se definiu claramente sobre propriedade intelectual, se do ponto de vista jurídico o imaterial e o pessoal correm paralelos ao patrimônio e o econômico, ou se um duo pode sobrepujar o outro.
No Brasil, os direitos autorais voam com a brisa que refresca a obra nova em folha. O órgão de fiscalização organizado pelo decreto 76.275/75 (reformulado pelo Decreto nº 84.252/79, todos revogados pelo Decreto de 05.09.1991) é omisso em muitos casos que escandalosamente vêem a público. Um Conselho Nacional de Direito Autoral que é pressuposto de consulta, assistência, arrecadação e distribuição desses mesmos direitos autorais não pode se calar frente à depredação da criação do artista. Sua voz fraca e corrupta que toma corpo em um Escritório de Arrecadação e Distribuição, o famigerado ECAD não deveria ter poderes além dos quais uma sociedade civil constituída em bases democráticas está apta a ter.
Essa podridão no gerenciamento do patrimônio cultural da sociedade deu novamente o ar da graça ontem, na abertura do Cineclube Cinesesc com uma panorâmica sobre Ruy Guerra. Presente na abertura, o diretor, roteirista, cronista, montador, entre outras incursões, naturalmente, estava seguro que o filme a ser exibido seria o seu... Falou, portanto sobre o contexto histórico de OS fuzis, seu filme de 1963, abrindo trilhas no Cinema Novo tupiniquim em época de entusiasmo desenvolvimentista amputado por uma ditadura ufanista. Reiterando que estética é política, discorreu sobre o fiasco de audiência com que Os Fuzis foi martirizado no seu lançamento até os inúmeros festivais que o exibem hoje mundo afora, clamando a intrigante câmera flutuante e os longos planos-sequência, típicos do moçambicano.
Num desses festivais, especificamente em Berlim, Ruy Guerra menciona que uma versão mutilada de Os fuzis, sem a introdução de Antonio Pitanga num monólogo crucial para o entendimento do filme, foi apresentada. Ruy Guerra não condena o livre arbítrio e a subjetividade de cada um em achar seus filmes chatos ou enigmáticos, porém manipular as cenas e re-editar o filme, apresentando-o como criação do diretor, é uma afronta digna de processo. Á época, ele negociou com o produtor e deu-se a questão por resolvida. Mais como um fato curioso, esse dado não chamou atenção da platéia reduzida e acanhada presente ao cinema. Sentam-se todos, então, e na telona vai se desenrolando o espírito de Os Fuzis.
Aos cinco do primeiro e único tempo do fotograma, Ruy Guerra levanta-se e bombasticamente declara: Este filme não é meu. Visivelmente irritado, sai da sala. O efeito demora ainda alguns minutos, e logo o fuzuê está pronto.
Indignado, o diretor confessa que não esperava tal atitude do MAM do Rio de Janeiro, responsável pela cópia exibida, cogitando imediatamente um belo processo pelo dano à sua imagem. O Cinesesc apóia Ruy Guerra e prontifica-se a repor a sessão com o original de Os Fuzis. Para tirar a cara de tacho do povo que se dignificou a prestigiar o cinema nacional de qualidade.
Quem viver, verá mais histórias da carochinha como esta nos cinemas, nos palcos, nos cds e na memória cultural de nosso povo. A conivência, porém, é proibida. A denúncia contra manipuladores da arte de outrem e a defesa dos direitos dos criadores devem ser exercitadas. Sorte que Ruy Guerra estava a postos para o flagrante. Azar que nem todos são como Ruy Guerra. Mas nada que não possamos aprender.



Comments:
Muito bem, Magali. Você põe os pontos nos ii. :-) Abraço
 
Bom, Sheila, você sabe, é por isso que há tantos analfabetos no Brasil: o desconhecimento do povo favorece a cartilha dos que podem mais. O be-a-bá quem faz são eles, nós é que criamos os mais diferentes dialetos!
Obrigada pela visita!
Beijos!
 
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