sábado, janeiro 29, 2005
Nossa Música desconhecida para nossas guerras muito conhecidas
Godard
Você conhece ou já ouviu alguma composição de Jean Sibelius, Alexander Knaiffel, Hans Otte, Ketil Bjornstand, Meredith Monk, Komitas, Gyorgy Kurtag, Per Oddvar Johansen, Valentin Silverstrov, Oynvind Braekke, Tchaikowski, Trygve Seim, Arvo Part, Anouar Brahem ou David Darling? Estes compositores escondem segredos e guardam surpresas para qualquer amante de música. A quem se presta a descobri-los, provavelmente vai desfrutar de audições insólitas. Se for apreciador de um pouco de poesia e filosofia de Derridas e Levinas, tanto maior a sublimação.
Pelo menos é isso que sugere à primeira vista Nossa Música ( Notre Musique, França 2004), último filme de Godard que aportou na terra brasilis.Especialmente a primeira parte, ou reino, como o diretor o chama, o Inferno, um piano tocado com rancor e pontuado de ódio e violência dá vazão às imagens de uma cronologia de guerras no mundo, desde a Idade Média, com uma apologia que pode ser uma Guerra dos 100 Anos do século XIV, passando pelo extermínio dos índios americanos, as duas Grandes Guerras do Século XX, e as guerras antes periféricas, e que hoje têm caráter central, com Israel, Palestina, e a última grande guerra européia, a da Bósnia, fechando uma introdução do pensamento de Godard.
Pensamento este que ele toma emprestado de Derridas com frases ( A morte é a impossibilidade da possibilidade; ou a possibilidade da impossibilidade; O eu é o outro) lançadas como mísseis ou minas explosivas nos alvos, que sejam, seus espectadores. Os que as apreciam, chegam à redenção, os que as detestam, simplesmente morrem em seus sentidos. As cores são quentes, o fogo consome tudo em quase todas as iamgens. O desconforto está instalado.
A estrutura da Divina Comédia de Dante continua, com o segundo reino, o Purgatório, onde Godard vai discutir as conseqüências das atrocidades que fizemos em séculos em um encontro literário em Sarajevo, os Encontros Europeus do Livro. Olga, a jovem jornalista israelense questiona Godard: Porque as revoluções não são feitas por homens bons? Ao que Godard responde: Por que os homens bons constroem bibliotecas. Ironicamente, seu companheiro no táxi retruca: E cemitérios. Aqui se encontram os índios americanos exterminados, um tradutor espanhol impassível como um europeu arrogante típico, um escritor palestino jogando elegantemente na cara de uma jovem jornalista israelense o amor e o ódio entre os dois países, tudo isso costurado por pequenas intervenções do Godard-ele mesmo, defendendo o uso de campo e contracampo como metáfora de relacionamento humano contemporâneo ( o vitorioso faz história, o perdedor faz documentários). A segurança das cidades é questionada quando estamos vendo uma Saravejo semi-destruída, com prédios imensos abandonados e muitas marcas de balas e metralhadoras. Mesmo assim, a população recupera sua rotina e a vida segue um pouco abalada. Os rostos que Godard mostra são de muita batalha, muito sofrimento, não há ilusões. A única é a morte, como a surpreendente morte relatada aqui como fechamento de Purgatório.
Para variar, não há um fim nas idéias deste diretor franco-suíço, tampouco um final óbvio em seus filmes. A última parte, O Paraíso, é claro em sua mensagem anti-imperialista inicial, com marines americanos guardando um pequeno paraíso de águas claras e calmas com os versos irônicos de uma antiga música americana que diz que os portões do paraíso serão guardados por marines americanos. Voltando ao pecado original do mundo, temos a jovem que divide com um estranho uma maçã com uma displicência típica de quem já não tem mais o que dizer, por quê lutar nem como mudar isso. Mas ela não deixa de sonhar, fechando os olhos suavemente. Mesmo sendo observada constantemente pelos marines americanos.
Os aforismos e citações estão pulsando em todo o filme, bem como as referências ao próprio cinema de Godard e sua Nouvellle Vague e as interpretações se multiplicam a cada um que assiste. Na preguiça verbal e de argumentos em que estamos afundados hoje, cultuando a informação e os fatos sem si, é sempre bom parar um pouco para refletir com homens como Godard, quebrando tabus que o acusam de ininteligível e elitizado. Ele é tão nebuloso e inacessível quanto o livre ato de pensar.
Godard
Você conhece ou já ouviu alguma composição de Jean Sibelius, Alexander Knaiffel, Hans Otte, Ketil Bjornstand, Meredith Monk, Komitas, Gyorgy Kurtag, Per Oddvar Johansen, Valentin Silverstrov, Oynvind Braekke, Tchaikowski, Trygve Seim, Arvo Part, Anouar Brahem ou David Darling? Estes compositores escondem segredos e guardam surpresas para qualquer amante de música. A quem se presta a descobri-los, provavelmente vai desfrutar de audições insólitas. Se for apreciador de um pouco de poesia e filosofia de Derridas e Levinas, tanto maior a sublimação.
Pelo menos é isso que sugere à primeira vista Nossa Música ( Notre Musique, França 2004), último filme de Godard que aportou na terra brasilis.Especialmente a primeira parte, ou reino, como o diretor o chama, o Inferno, um piano tocado com rancor e pontuado de ódio e violência dá vazão às imagens de uma cronologia de guerras no mundo, desde a Idade Média, com uma apologia que pode ser uma Guerra dos 100 Anos do século XIV, passando pelo extermínio dos índios americanos, as duas Grandes Guerras do Século XX, e as guerras antes periféricas, e que hoje têm caráter central, com Israel, Palestina, e a última grande guerra européia, a da Bósnia, fechando uma introdução do pensamento de Godard.
Pensamento este que ele toma emprestado de Derridas com frases ( A morte é a impossibilidade da possibilidade; ou a possibilidade da impossibilidade; O eu é o outro) lançadas como mísseis ou minas explosivas nos alvos, que sejam, seus espectadores. Os que as apreciam, chegam à redenção, os que as detestam, simplesmente morrem em seus sentidos. As cores são quentes, o fogo consome tudo em quase todas as iamgens. O desconforto está instalado.
A estrutura da Divina Comédia de Dante continua, com o segundo reino, o Purgatório, onde Godard vai discutir as conseqüências das atrocidades que fizemos em séculos em um encontro literário em Sarajevo, os Encontros Europeus do Livro. Olga, a jovem jornalista israelense questiona Godard: Porque as revoluções não são feitas por homens bons? Ao que Godard responde: Por que os homens bons constroem bibliotecas. Ironicamente, seu companheiro no táxi retruca: E cemitérios. Aqui se encontram os índios americanos exterminados, um tradutor espanhol impassível como um europeu arrogante típico, um escritor palestino jogando elegantemente na cara de uma jovem jornalista israelense o amor e o ódio entre os dois países, tudo isso costurado por pequenas intervenções do Godard-ele mesmo, defendendo o uso de campo e contracampo como metáfora de relacionamento humano contemporâneo ( o vitorioso faz história, o perdedor faz documentários). A segurança das cidades é questionada quando estamos vendo uma Saravejo semi-destruída, com prédios imensos abandonados e muitas marcas de balas e metralhadoras. Mesmo assim, a população recupera sua rotina e a vida segue um pouco abalada. Os rostos que Godard mostra são de muita batalha, muito sofrimento, não há ilusões. A única é a morte, como a surpreendente morte relatada aqui como fechamento de Purgatório.
Para variar, não há um fim nas idéias deste diretor franco-suíço, tampouco um final óbvio em seus filmes. A última parte, O Paraíso, é claro em sua mensagem anti-imperialista inicial, com marines americanos guardando um pequeno paraíso de águas claras e calmas com os versos irônicos de uma antiga música americana que diz que os portões do paraíso serão guardados por marines americanos. Voltando ao pecado original do mundo, temos a jovem que divide com um estranho uma maçã com uma displicência típica de quem já não tem mais o que dizer, por quê lutar nem como mudar isso. Mas ela não deixa de sonhar, fechando os olhos suavemente. Mesmo sendo observada constantemente pelos marines americanos.
Os aforismos e citações estão pulsando em todo o filme, bem como as referências ao próprio cinema de Godard e sua Nouvellle Vague e as interpretações se multiplicam a cada um que assiste. Na preguiça verbal e de argumentos em que estamos afundados hoje, cultuando a informação e os fatos sem si, é sempre bom parar um pouco para refletir com homens como Godard, quebrando tabus que o acusam de ininteligível e elitizado. Ele é tão nebuloso e inacessível quanto o livre ato de pensar.