quarta-feira, janeiro 19, 2005

Milton e Ruy. O Nascimento e a Guerra.

Milton Nascimento dispensa apresentações. Já fez música com todo o tipo de gente, para todo tipo de coisa. Mas há um ponto em que o mundo se encontra na mesma língua, quando Moçambique encontra Minas. O moçambicano e o mineiro do Rio de Janeiro. Quando Ruy Guerra se junta a Milton para fazer música.

A belíssima Bodas, em Milagre dos Peixes Ao Vivo( 1974), é um filme sonoro. É visível a assinatura bélico-poética de Ruy Guerra. O rufar dos tambores com o sax agudo como um grand finalle invertem os sentidos: a música está começando, dramática, e logo entram os versos com as rimas aliteradas de Ruy e Milton, numa musicalidade que ganha a força interpretativa de Milton. A repetição das palavras canhoneira, indefesa, tudo, tristeza, prata, mata, canhão, sangue, vão pontuado todas as mazelas da exploração e da guerra colonizadora, contando a história de uma maneira agressiva que chega ao desespero com o sangue e o canhão que mata.
Ney Matogrosso a regravou com sucesso também na década de 70..

Bodas (Milton e Ruy Guerra)

Chegou no porto um canhão
Dentro de uma canhoneira
Tem um capitão calado
De uma tristeza indefesa

Deus salve sua chegada
Deus salve a sua beleza

Chegou no porto um canhão
De repente matou tudo
Capitão senta na mesa
Com sua fome e tristeza

Deus salve sua Rainha
Deus
Salve a bandeira inglesa

Minha vida e minha sorte
numa bandeja de prata

Eu daria a corte atenta
Com o cacau essa mata
Todo o cacau dessa mata

Daria a corte a Rainha
numa bandeja de prata
Pra ver o capitão sorrir
Foi-se embora a canhoneira
Sua pólvora a e seu canhão
Pão e barriga cheia
Vai mais triste o capitão
Vai mais triste o capitão
Levando o cacau
Sangue

Deu salve sua Rainha
Deus salve a fome que ele tinha

Outro poema creditado aos dois é E dái?, uma rebelde declaração de amor à liberdade de ser uma pessoa única, pulsante, até chegar à escatologia. É a trilha sonora do filme A queda.

E daí?
Tenho nos olhos quimerascom brilho de trinta velasDo sexo pulam sementesexplodindo locomotivas.Tenho os intestinos soltosnum rosário de lombrigas.E os meus músculos são poucospara essa rede de intrigas.Meus gritos, afrolatidosimplodem, rasgam, esganamE nos meus dedos dormidos,a Lua das unhas ganem.
E daí?
Meu sangue de mangue secosobe a custo, a contragostoE tudo aquilo que fujotirou prêmio, aval e postoEntre hinos e chicanasentre dentes, entre dedosno meio dessas bananasos meus ódios e os meus medos
E daí?
Iguarias na baixelavinhos finos nesse odreE nessa dor que me pelasó meu ódio não é podreTenho séculos de esperanas contas das minha costelaTenho nos olhos quimerascom brilho de trinta velas ...
E daí?


Leia mais sobre Milagre dos Peixes ao Vivo abaixo:

Milagre dos Peixes

A vida e a carreira de Milton Nascimento são episódio à parte na história da música brasileira, a começar pelo seu nascimento no Rio de Janeiro e sua posterior adoção por parte de uma família na cidade mineira de Três Pontas, passando pelo seu desabrochar para a música nos tempos de Belo Horizonte, que incluiu performances como baixista e “crooner” nos bailes, o contato com “Os Borges”, e chegando no reconhecimento internacional de seus trabalhos, que acabou por levar sua música para o mundo e a arregimentar ilustres fãs de sua música, gente tarimbada como Wayne Shorter, Pet Metheny, Jon Anderson, Carlos Santana e tantos outros mundo afora.
Poderíamos gastar muito tempo e muitas colunas para descrever a brilhante produção musical desse artista ao longo dos anos, bem como de seus talentosos parceiros, mas iremos nos ater nesse momento a dois dos mais belos discos gravados nesse país: “Milagre dos Peixes”, gravado em 1973 e o posterior “Milagres dos Peixes Ao vivo”, gravado em 1974.
Para entendermos melhor o contexto em que forami gravados esses excepcionais álbuns, devemos voltar no tempo e relembrar como estavam a carreira de Milton Nascimento e a situação do Brasil nesta época.
Em 1973 Milton já era um nome bastante conhecido no Brasil e até no exterior, apesar de no ano de 1966 ter sua composição “Canção do sal” interpretada na voz de Elis Regina, foi em 1967 no II festival internacional da canção no Rio de Janeiro, com a canção “Travessia”(música de Milton e letra de Fernando Brant) que o artista tornou-se nacionalmente conhecido. Sua música ficou em segundo lugar(a primeira colocação ficou com “Margarida”, de Guarabira) mas Milton acabou ganhando o prêmio de melhor intérprete e foi ovacionado por mais de 30.000 pessoas que compareceram ao ginásio do Maracanãzinho, local do festival. Depois de 1967 o artista viajou aos Estados Unidos aonde gravou um disco com Eumir Deodato (Courage, que contou com a participação do pianista Herbie Hancock), gravou trilhas sonoras para filmes e também belos álbuns como Milton de 1970 (que continha a clássica “Para Lennon e McCartney”) e Clube da Esquina(este com Lô Borges) em 1972 mas – como ocorre com muitos músicos – a música “Travessia” e o festival da canção acabaram por estigmatizar Milton como artista de uma música só, de um brilho repentino. Naturalmente que essa era a visão dos críticos porque bastava conhecer sua produção entre 1967 e 1972 para perceber que não era pertinente essa crítica, mas,enfim....
Suas composições eram bastante cultuadas entre os intelectuais e estudantes mas ainda o mantinha longe do grande público (que a bem da verdade, ele só conseguiu atingir no final dos anos 70 e começo dos anos 80 em álbuns como “Sentinela” e “Caçador de mim” e hits como “Maria,maria”,“Canção da América”, “Nos bailes da vida” e tantos outros que tornaram-se sucessos de rádio e tv). Já o Brasil vivia sob pesada ditadura militar, muitas perseguições políticas e policiamento sobre as idéias;no âmbito da música popular, a censura era implacável com qualquer coisa que soasse estranho e fora do contexto, mesmo que de fato as letras não tivessem nada a ver com propagandas subliminares contra o governo, na dúvida, a censura não costumava deixar passar nada.O disco “Milagre dos peixes” talvez tenha sido em toda a discografia de Milton Nascimento, o trabalho mais censurado pela ditadura com consequências diretas sobre o resultado final da obra, por isso não é possível entender esse genial álbum se ignorarmos o tempo histórico em que o trabalho foi concebido.
.:: O disco
Certamente o leitor que conhece o trabalho de Milton Nascimento baseado apenas em alguns dos seus consagrados sucessos ou mesmo pela audição de outros álbuns mais comerciais, estranhará bastante o desenrolar de “Milagre dos Peixes”. Sem dúvida esse trabalho difere de qualquer outro disco gravado pelo artista, a começar pelo total experimentalismo de algumas faixas e – como descrevemos acima– pela nefasta influência da censura que simplesmente vetou letras de algumas canções acabando por transformá-las inevitavelmente em faixas instrumentais.
Apesar de ser um artista que fazia muito sucesso entre os estudantes e intelectuais da ocasião, mas que não vendia tantos discos como deveria, Milton Nascimento levava multidões aos seus shows e a sua gravadora à época (Emi-Odeon) enxergava nele um grande potencial comercial ainda não totalmente explorado. Para a elaboração de “Milagre dos Peixes” a gravadora investiu e disponibilizou uma orquestra sinfônica dentro do estúdio(que inclusive contou com a regência do consagrado maestro Radamés Gnatalli na faixa “Tema dos deuses”), caprichou na produção gráfica do disco (incluindo um poster de uma criança amparada pelos braços paternais de um negro, além do encarte com papéis coloridos). E como se não bastasse, Milton foi convidado a apresentar o show “Milagre dos Peixes” com orquestra sinfônica e o Som Imaginário(aliás, maravilhosa banda que merecerá uma futura coluna só para ela) na reinauguração do teatro municipal de São Paulo, que até então estava fechado passando por longa reforma.
Quem conhece a discografia de Milton Nascimento certamente está acostumado a ouvir músicos como Wagner Tiso, Robertinho Silva(aqui substituído à altura por Paulinho Braga, mas voltando a aparecer como integrante do Som Imaginário no “Milagre dos Peixes Ao vivo”), Nivaldo Ornelas, Paulo Moura, Novelli(que substituiu Luis Alves que, assim como Robertinho Silva, voltou no “Ao vivo”) e tantos outros que fazem parte de um time de talentos do primeiro escalão da música brasileira, gente com uma musicalidade muito acima da média. Ficou faltando uma pessoa. Pois bem, cada ouvinte tem suas preferências e opiniões, mas nessa grande obra que é “Milagre dos Peixes” não dá para não destacar a performance de Naná Vasconcelos. Falar do capacidade desse mito da percussão é redundante, mas nesse trabalho ele parece estar especialmente inspirado e destaca-se, seja tocando berimbau, batendo palmas ou produzindo efeitos vocais dos bichos da floresta, sussurros e ecos. Como se comenta no popular, o homem estava endiabrado. Se admitirmos também que o time dos compositores e letristas parceiros de Milton, como Ronaldo Bastos e Fernando Brant (assim como os músicos, gente muito acima da média) passavam por um momento de muitas idéias e – apesar da ditadura – brilhantismo, já começamos a deduzir o que foi o resultado final do disco com a capacidade criadora dessa turma toda focada num só objetivo...
.:: As faixas
“Milagre dos Peixes” foi um disco mutilado pela censura .A começar pela faixa de abertura, “Os escravos de Jó” , que contou com a participação de Clementina de Jesus esboçando um vocal, mas que não era a letra original; o mesmo aconteceu com “Hoje é dia de El Rey” que saiu sem o diálogo entre um pai e seu filho que Milton e Márcio Borges idealizaram. A letra na íntegra está no belíssimo livro “Os sonhos não envelhecem” aonde Márcio Borges nos relata detalhadamente a história do Clube da Esquina. O curioso é que ao narrar esses fatos pode-se pensar que o disco ficou uma porcaria... mas aí é que a coisa é curiosa, o resultado final ficou ótimo. Especialmente por “Os escravos de Jó” que essa coluna considera a melhor faixa. Aliás, em “Hoje é dia de El Rey” justiça seja feita, Nivaldo Ornelas encerra magistralmente a faixa com um solo de sax muito bem tocado.
“Pablo” é cantada por Nico Borges, então com apenas oito anos, a letra é surreal mas a canção é ótima,“Última sessão de música” remete a clássica faixa “Alan’s Psychedelic Breakfast” faixa do clássico “Atom Heart Mother” do Pink Floyd. A diferença é que ao invés de ovos fritando na frigideira e risadas de fundo, temos talheres e conversas. Temos a melancólica “Sacramento” e a alegre “Pablo nº 2 (Festa)”, a inesquecível faixa-título e muito mais.
No trabalho ao vivo pequenas mudanças:Nem todas as faixas do disco de estúdio aparecem na versão em cd, mas em compensação clássicos absolutos como “Nada será como antes”, “Cais” e a M-A-R–A-V-I-L-H-O-S-A “San Vicente” estão lá. De quebra ainda temos “A matança do porco” do Som Imaginário, faixa título de um dos melhores discos instrumentais já gravados no Brasil, nesse caso, com Toninho Horta substituindo o guitarrista original da banda, o criativo Frederiko. O show foi gravado no teatro municipal de São Paulo nos dias 7 e 8 de Maio de 1974.Enfim, cada pequena variação, cada estrofe, cada compasso, cada faixa merece ser apreciada - como bem diriam os apreciadores de vinhos - com o máximo deleite. “Milagre dos Peixes” é um marco na longa carreira de Milton Nascimento e marca registrada na música brasileira, 32 anos após seu lançamento ainda é um disco que fascina pela qualidade e pelo elenco de feras reunidas.

Carlos Frederico para o Forma Mundi

Parceiro recorrente de Edu Lobo, Francis Hime e Chico Buarque, Ruy Guerra também
trabalhou com com Egberto Gismonti em Estorvo e Kuarup. Ouça Milton na espera de Gismonti e Ruy Guerra nas próximas edições.



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