segunda-feira, janeiro 31, 2005
Bosch
El Bosco
As tentações de Santo Antão, 1500, Holanda.
Entre todos os santos, o preferido de Bosch era Santo Antão. Em mais uma cena alegórica, este pintor do fantástico distende os limites da iconografia religiosa da época.Bosch navegava tranqüilamente entre o sacro e o profano, entremeados por narrativas similares à literatura de viagem do período das grandes navegações do final do século XV. Trinta e quatro anos antes da Reforma de Henrique VIII, esta explora cenas de apocalipse, lendas populares e um certo bestiário típico de Bosch para descrever as tentações pelas quais passou Santo Antão. Sua produção foi pequena, talvez pelo fato de sua ousadia artística ter incomodado o clero, que proibiu suas obras.
O neoplatonismo da época renascentista já atingia algumas idéias cristãs, tendo a negação como ponto central. Assim, defendia-se que Deus só pode ser conhecido por que sabe-se que ele não existe da mesma forma que os seres humanos. Este paradoxo da negação tinha na figura do monstro seu mais forte signo, explorado abundantemente por Bosch.
Ninguém passa incólume às pinturas de Bosch, e com As tentações de Santo Antão isso não seria diferente.A angústia, desprezo, misericórdia, arrogância, desespero das feições das criaturas provocam o imaginário do espectador, que é praticamente obrigado a observar mais acuradamente a cena. Aí vem a descoberta dos detalhes: cores fortes e contrastes convincentes de luz e sombra ,corpos transmutados, relações dúbias entre os personagens, simbolismos variados. O olho caminha incessantemente de um ponto a outro, é fácil a fragmentação do todo. Definitivamente uma obra de arrebatadora expressividade e conseqüentemente grande sentimentalismo se sobrepondo a razão.
De uma família de pai e avô pintores, Bosch desfrutou desde pequeno o contato com as artes. Herdou provavelmente técnicas específicas que com o tempo apurou. Também era exímio escultor em metal e hábil com vitrais, materiais que utilizou na catedral de São João, em Hertogenbosch. .
A tela original mede 131.15 x 119 cm no painel central e 131.15 x 53 cm em cada painel lateral e está no Museu de Arte Antigua, em Lisboa. Foi doado pelo Rei Manoel em 1911, depois de passar pelo Real Palácio das Necessidades no século XIX, onde estava desde que chegou a Portugal pelas mãos de Damiaan de Góes. Este humanista português estava na Holanda entre 1523 e 1544 a serviço de João III, de acordo com documentos não oficiais.
Há 20 cópias deste quadro, sendo 6 do tríptico completo, cinco do painel central, uma das quais é a exposta no Masp, em São Paulo.
Usando o óleo sobre tela em As Tentações de Santo Antão, sua pincelada é precisa e o esfumado da última de suas várias camadas sobre a tela é relativamente suave. Próximo ao horizonte, a paisagem fica nebulosa, com construções e montanhas mais claras em tons de verdes e azuis cinzentos para dar profundidade. Outra técnica para profundidade utilizada é a sobreposição de várias camadas de óleo,o que também conferia transparência, como a pele do homem-casa e as chamas da cidade queimando ao fundo. As tentações de Santo Antão já foi restaurada duas vezes; uma na metade do século XIX pelo Rei Ferdinando, com aplicação de uma camada grossa de verniz, que foi removida em 1911. A segunda foi feita em 1958. Estudo técnicos da pintura comprovam que foram feitas mudanças substanciais na pintura, porém impossíveis de serem percebidas a olho nu.
Iconografia de Santo Antão
SantoAntão é geralmente representado como um idoso, visto que viveu até os 105 anos. Veste um hábito preto, carrega um cruz em “T” ou uma bengala com um “T” em sua ponta, e é acompanhado por um porco. Algumas vezes também carrega um pequeno sino.
Muitos pintores também retrataram Santo Antão, começando com a gravura de Martin Schongauer intitulada As tentações de Santo Antão, em 1480/1490, com a narrativa centrada com o Santo, já entrelaçado com demônios, animais, figuras fantásticas e monstros . Dez anos depois, temos Bosch, em 1500, seguido de Matthias Grunewald, em 1510, que ainda utiliza criaturas fantásticas, bem no estilo de Bosch. Velásquez, em 1635/1638, representou o encontro do santo e um ermitão, em uma paisagem rochosa desértica. Goya, em 1798, escolheu os milagres do santo para pintar uma cena de compaixão e doçura.Em 1875, Paul Cézanne pintou com tons azulados e formas humanas as tentações de Santo Antão.
Hagiografia de Santo Antão
Santo Antão nasceu no Egito, na cidade de Coma, e quando jovem despojou-se de suas posses e mudou-se para o deserto para viver como um ermitão. Freqüentemente tentado pelo demônio, resistiu sempre, atraindo a atenção de alguns jovens que tornariam-se seus discípulos e abraçariam, como Antão, a vida monástica e solitária no deserto. E 311, foi para Alexandria para auxiliar nas confissões dos grupos perseguidos pelo Imperador Maximus Daia. O encontro de Antão e o ermitão São Paulo é retratado em telas de artistas como Velásquez.
As influências de Bosch nas artes nos séculos subseqüentes
Bosch influenciou inúmeros artistas ao redor do mundo, desde Dali ao menos conhecido Robert Gober.
Leonora Carrigton, inglesa que era muito respeitada por Dali e Breton, fez uma releitura de As tentações de Santo Antão em 1947 em meio às sua pinturas de temas surreais.
No século XX, a mexicana Frida Khalo evocava o fantástico em suas pinturas, sendo explícita em sal admiração pelo holandês em seus diários.
Em sua tela El gran masturbador, Dali faz uma nítida releitura de Bosch, comparação que pode ser observada em Bosch Universe.O surrealismo de Dali é freqüentemente associado a Bosch.
No cinema, o dramaturgo e cineasta espanhol Fernando Arrabal ,um dos criadores do Movimento Pânico, em 1963 junto com Roland Topor e Alejandro Jodorowsky é assumidamente seguidor de Bosch. Seu filme de 1970, Viva La Muerte, bebe na fonte onírica e bestial de Hyeronimus, além de Valdes Leal e Bruegel.
Na literatura de ficção, o inglês Ian Watson, assistente de Stanley Kubrick em A.I.- Artificial Intelligence ( I.A. Inteligência Artificial) imaginou um romance em que uma nave, a Schiaparelli, desce numa atmosfera que é uma perfeita réplica de Jardim das Delícias, batizando o livro, portanto, de The Gardens of Delight. Nesta estória de 1980, a tripulação encontra-se presa neste planeta paradisíaco e tenta voltar a seu curso normal.
Conterrâneo de Bosch, o holandês Hugo Raes também se inspirou nas pinturas fantásticas de Jardim das Delícias para escrever 'Een faun met kille horentjes em 1973.